Vazio

É mais fácil marcar outro encontro do que perguntar por que estamos sempre buscando alguém.

7/3/20263 min read

Há um vazio que não é sobre falta de algo concreto. Não é sobre não ter dinheiro, não ter amor, não ter sucesso. É um vazio que persiste mesmo quando essas coisas estão lá. Um buraco que não se deixa tapar por conquistas, por compras, por likes, por reconhecimento. Um vazio que, paradoxalmente, parece aumentar quanto mais tentamos preenchê-lo.

Na psicanálise lacaniana, esse vazio tem um nome: falta. O sujeito é barrado. Nunca coincide plenamente consigo mesmo. Há sempre algo que escapa, que não se diz, que não se sabe. Essa falta é o que permite o desejo. Se fôssemos completos, não desejaríamos. Mas justamente porque somos incompletos, estamos sempre em busca de algo.

O problema é que confundimos essa falta com a falta de objetos. Achamos que, se tivermos a casa certa, o corpo certo, o relacionamento certo, o trabalho certo, o vazio vai sumir. E então nos jogamos numa corrida interminável: mais uma compra, mais um curso, mais uma dieta, mais uma viagem, mais um match. Cada novo objeto promete ser a peça que falta. E por um instante, até parece que é. Até que a sensação volta.

Lacan fala do objeto a como causa do desejo. Não é o que desejamos, mas o que nos faz desejar. Algo que está sempre um passo à frente, sempre fora de alcance. Quando conseguimos o objeto, ele perde o brilho. Porque o verdadeiro objeto do desejo não era aquilo, mas a falta em si. A falta que nos move.

As coisas fúteis com que tentamos preencher o vazio: roupas, gadgets, redes sociais, séries, comida, álcool, trabalho excessivo, não são fúteis por acaso. São justamente o que a sociedade oferece como resposta rápida para uma pergunta que não tem resposta rápida. São significantes prontos, fáceis de consumir, fáceis de descartar. Eles não exigem que enfrentemos a falta. Apenas a mascararem por um tempo.

Há também um gozo nisso. Um prazer paradoxal em nos mantermos ocupados, distraídos, cheios de coisas. Em não parar para sentir o vazio. Em não encarar a pergunta: o que eu quero de verdade? O que me move? O que me falta? É mais fácil comprar algo novo do que perguntar por que precisamos comprar. É mais fácil marcar outro encontro do que perguntar por que estamos sempre buscando alguém.

Na clínica, isso aparece o tempo todo. O paciente que troca de objeto constantemente. Que muda de projeto, de cidade, de parceiro, sempre que a rotina se instala. Que só se sente vivo na novidade, na excitação, na promessa. Por trás disso, há um vazio que não suporta o silêncio. Um vazio que precisa ser preenchido com barulho, com movimento, com coisas.

A psicanálise não promete preencher esse vazio. Pelo contrário, ela nos convida a habitá-lo. A reconhecer que a falta é constitutiva. Que não há objeto que nos complete. Que o desejo é justamente o que nos impede de ficar parados, mas também o que nos mantém insatisfeitos.

Isso não significa que devamos abandonar todas as coisas fúteis. Significa que podemos usá-las sabendo que são fúteis. Que não vão resolver o vazio. Que são distrações, não respostas. E que, talvez, a única maneira de viver com o vazio seja aceitá-lo como parte da condição humana. Como o que nos faz buscar, errar, tentar de novo. Como o que nos impede de acreditar que a vida pode ser totalmente controlada, totalmente segura, totalmente previsível.

O desafio não é encontrar o objeto certo que finalmente vai preencher o vazio. É reconhecer que o vazio não é um problema a ser resolvido, mas uma pergunta a ser vivida. E que, talvez, as coisas fúteis percam um pouco do seu poder sobre nós quando paramos de esperar que elas nos salvem. Quando as usamos como o que são: pequenos prazeres, pequenas distrações, pequenos significantes. E não a resposta final para uma falta que, no fundo, é o que nos mantém vivos.

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