Silêncio

Há uma crença sutil de que o silêncio protege. Protege de conflitos, de decepções, de verdades que doem. Mas o que essa proteção esconde?

4/13/20263 min read

Há uma mesa de jantar onde todos sorriem, mas ninguém se olha nos olhos. A conversa flui em tópicos seguros — o tempo, a comida, o trabalho — enquanto algo não dito pesa no ar, como um cheiro que não se dissipa. Ninguém briga, ninguém chora, ninguém pede o que precisa. A harmonia, ao invés de ser um acordo, é um acordo tácito: ninguém vai até o ponto que incomoda. E o que parece serenidade, muitas vezes, é só o sintoma mais ruidoso de todos — a evitação que se instalou como regra.

O que se ganha com um silêncio assim? Não é a paz, porque a paz pressupõe um encontro — mesmo que conflituoso. É, antes, a ilusão de que o vínculo se mantém intacto justamente porque nada foi dito. Como se o não dito fosse um cimento invisível, capaz de segurar o que, na verdade, já se esvaiu. E, no entanto, o que se perde quando o diálogo é substituído por essa cumplicidade vazia? Perde-se a chance de saber o outro de verdade. Perde-se a possibilidade de que, justamente ali, no ponto de tensão, algo novo pudesse nascer.

Há uma crença sutil de que o silêncio protege. Protege de conflitos, de decepções, de verdades que doem. Mas o que essa proteção esconde? Que, ao evitar o embate, evitamos também a chance de que o outro — e nós mesmos — possamos nos transformar. O silêncio, quando vira norma, não é ausência de ruído. É a presença constante de um não-dito que, como um tumor silencioso, cresce sem ser notado. Até que um dia, sem aviso, o corpo adoece.

O que move quem prefere esse silêncio? Não é apenas o medo da briga. É o medo de que, ao dizer, algo se rompa de vez. É a fantasia de que, se não nomearmos o que nos separa, o vínculo permanecerá intocado. Mas a psicanálise nos lembra: o que não é dito não desaparece. Ele se inscreve no corpo, nos gestos, nas pequenas traições cotidianas. A linguagem, afinal, não é apenas um instrumento de comunicação. Ela é o lugar onde o desejo se revela — ou se esconde.

Jacques Lacan diria que o desejo não é uma coisa que se possua, mas um movimento, uma busca que só se realiza na relação com o Outro. Quando calamos, não estamos apenas protegendo os outros. Estamos, acima de tudo, protegendo a nós mesmos daquilo que não sabemos nomear. O silêncio, nesse sentido, é uma forma de gozo: uma satisfação paradoxal que nos mantém presos a uma posição que, no fundo, já não nos serve mais.

Há um gozo no não dito, sim. Ele permite que continuemos a viver como se tudo estivesse bem, sem ter que encarar a vertigem de sermos vistos como realmente somos. Mas esse gozo é também uma prisão. Porque, enquanto não dizemos, não podemos sequer saber o que desejamos de verdade. E sem desejo, o que resta? Apenas a repetição de um script que já não nos pertence.

Se o silêncio é o sintoma, o que ele nos pede para ser dito? Não é uma resposta pronta que ele exige. É, antes, a coragem de admitir que, por trás daqueles sorrisos à mesa, há uma pergunta que insiste: o que estamos dispostos a perder para não termos que enfrentar o que não queremos ver?

E, no entanto, é justamente nesse ponto que a psicanálise pode nos ajudar a pensar: o que a linguagem não alcança, o inconsciente continua a dizer. Mesmo que, para ouvi-lo, tenhamos que romper o silêncio.

Gostaria que eu ajustasse algum trecho, aprofundasse algum ponto ou mudasse o tom do texto? Ou prefere que eu elabore uma versão mais curta ou mais longa?