Podes
O paciente que chega dizendo que deveria estar melhor. Que leu os livros, que fez os cursos, que sabe o que precisa fazer, mas não consegue.
10/11/20263 min read


A frase "tu podes" soa, à primeira audição, como abertura. Parece convite, permissão, porta entreaberta. Mas conviver com ela revela outra natureza. O que deveria indicar um caminho passou a funcionar como sentença. A afirmação de uma capacidade virou a exigência de uma obrigação. E essa mudança diz muito sobre como nossa cultura organiza o sofrimento e a culpa.
Na tradição que acompanha aquela frase bíblica, timshel não é ordem nem promessa. É indicação de caminho. Tu podes. Não tu deves, não tu vencerás. Apenas tu podes. É o espaço onde o sujeito decide, diante do bem e do mal, o que fará. Mas o que circula hoje sob o mesmo som de palavras é outra coisa. É um "tu podes" que se transformou em lei silenciosa. Uma injunção que se apresenta como liberdade e funciona como açoite. Produtividade infinita, felicidade obrigatória, realização constante. Tudo é possível, portanto tudo é exigível. Quem não alcança, falhou por própria conta.
A psicanálise lacaniana dá nome a isso. Chama de imperativo do gozar do Outro. É a voz que nos diz o que devemos ser, como devemos desejar, o que devemos alcançar. Uma voz que se apresenta como benigna, como apoio, como possibilidade infinita, mas que funciona como lei implacável. Tu podes ser feliz. Tu podes emagrecer. Tu podes ter o corpo ideal, o relacionamento perfeito, a carreira de sucesso. E se não tens, é porque não quiseste o suficiente. A sociedade do desempenho não nos obriga mais através da proibição. Obriga através da possibilidade. E essa possibilidade ilimitada gera uma culpa ilimitada.
Aqui entra o que Lacan nos lembra sobre a estrutura do sujeito. O sujeito é barrado. Não há sujeito pleno, capaz de tudo. Há uma falta constitutiva. Algo que, desde o início, escapa. Não é uma falha a ser corrigida. É a condição para que haja desejo, linguagem, história. Se pudéssemos tudo, não desejaríamos. A barra no sujeito é o que o faz humano. E toda vez que alguém nos diz "tu podes", está vendendo a fantasia de um sujeito sem barra. Uma promessa que nunca se cumpre, porque a falta não se preenche. Ela se habita.
O "tu podes" também é uma forma de gozo. Não o prazer simples, mas aquela satisfação paradoxal que nos prende ao que nos faz sofrer. Há um gozo em se sentir especial, escolhido, capaz. Há um gozo em acreditar que somos donos do nosso destino. Esse gozo é sedutor porque nos dá a ilusão de onipotência. Mas é uma ilusão infantil. O adulto que vive sob o imperativo do "tu podes" repete a crença mágica da criança, agora vestida de desenvolvimento pessoal.
Na clínica, isso aparece com frequência. O paciente que chega dizendo que deveria estar melhor. Que leu os livros, que fez os cursos, que sabe o que precisa fazer, mas não consegue. E por trás dessa frase há uma vergonha profunda. A vergonha de não ter valido a pena. O trabalho da análise passa, muitas vezes, por desmontar essa promessa. Não para deixar o paciente desanimado, mas para libertá lo de uma culpa que não é sua.
A verdade mais honesta é que não podemos tudo. Não podemos controlar nossos pensamentos. Não podemos escolher nossos desejos. Não podemos apagar nossa história. Não podemos ser outra pessoa simplesmente porque decidimos. E reconhecer isso não é derrota. É o início de outra possibilidade. A possibilidade de parar de se torturar. De parar de acreditar que, se apenas tentasse um pouco mais, a falta sumiria.
O "tu podes" ainda esconde uma crueldade. Ele sugere que o sofrimento do outro é opcional. Que a pobreza, a depressão, a doença, a falha são escolhas. Revela uma necessidade de acreditar num mundo justo, onde quem se esforça é recompensado. Uma fantasia defensiva contra a própria vulnerabilidade.
Claro que há coisas que podemos. Podemos tentar. Podemos escolher, dentro de limites. Podemos agir, falar, buscar ajuda. Mas a diferença entre "posso tentar" e "tu podes" é enorme. A primeira é uma constatação modesta, dentro dos limites de um sujeito barrado. A segunda é uma injunção do Outro que nega a barra. E é essa negação que produz tanto sofrimento.
Talvez o que a psicanálise ofereça diante do "tu podes" seja uma outra frase, menos sedutora, mais verdadeira. Tu não podes tudo. E isso não te faz menos. Te faz sujeito. A falta não é ferida a ser vencida. É o lugar onde o desejo nasce. E viver é aprender a suportar essa falta sem precisar tapá la com promessas de onipotência. O sujeito que aceita que não pode tudo talvez esteja mais livre para fazer o que de fato pode. Não para preencher um vazio impossível, mas para habitar, com mais honestidade, a vida que lhe foi dada.
