Normal
Isso não significa que Maté e Lacan digam a mesma coisa. Maté é mais otimista em relação à possibilidade de reconexão com uma “essência” saudável. Lacan é mais cético: não há essência, há sujeito.
6/24/20264 min read


Gabor Maté, em “O Mito do Normal”, nos confronta com uma ideia incômoda: o que chamamos de “normal” em nossa sociedade é, na verdade, patogênico. Doenças crônicas, ansiedade, depressão, vícios não seriam apenas falhas individuais, mas sintomas de um ambiente social doente. Um mundo que exige produtividade, desempenho, positividade e adaptação a qualquer custo. Um mundo onde o sofrimento é visto como desvio, e a cura como ajustamento a essa norma.
Maté argumenta que trauma, estresse crônico e pressões sociais moldam nossa saúde física e mental muito mais do que a genética ou a biologia pura. O “normal” da medicina moderna fragmenta o indivíduo, ignora a história, o contexto, a dor emocional. E propõe, como caminho de cura, um “despertar” para a autenticidade: reconectar se com o que a vida pede, e não com o que a norma exige.
A psicanálise lacaniana chega aqui não para contradizer Maté, mas para dar espessura conceitual a essa intuição. Porque o “normal” que Maté critica não é apenas uma estatística ou um padrão social. É uma função do Outro. O lugar de onde vêm os ideais, as expectativas, os significantes que nos dizem como devemos ser, o que devemos desejar, o que devemos temer.
Lacan nos lembra que o sujeito é barrado. Nunca coincide plenamente com os ideais que o Outro lhe oferece. Há sempre um resto, uma falta, algo que escapa. Quando a sociedade elege um certo modo de vida como “normal”, bem sucedido, equilibrado, produtivo, positivo, ela está, na verdade, oferecendo um roteiro para o desejo. E quando o sujeito não consegue se encaixar nesse roteiro, ele paga o preço: culpa, ansiedade, depressão, doença.
O trauma, para Maté, é o que acontece quando o ambiente não consegue acolher a vulnerabilidade da criança. Quando a dor não é reconhecida, quando o choro é silenciado, quando a raiva é punida, quando a verdade é negada. Na linguagem lacaniana, isso pode ser lido como uma falha no lugar do Outro. O Outro que deveria acolher a demanda, escutar o sofrimento, dar sentido ao que ainda não tem palavras, muitas vezes não está lá. Ou está, mas de um modo que exige adaptação, silêncio, performance.
O resultado é que a criança aprende a se organizar em torno de um falso self. Um eu que funciona, que se adapta, que não causa problemas. Esse eu é o que Maté chama de distância da “essência”. E é também o que a psicanálise chama de eu imaginário, construído para agradar ao Outro, para receber amor, para evitar rejeição. O problema é que, por trás desse eu, há um sujeito que não foi escutado. E esse sujeito volta, anos depois, na forma de sintoma.
O sintoma, para Lacan, não é erro a corrigir. É mensagem a decifrar. É o modo que o sujeito encontrou de dizer o que não pôde ser dito de outra forma. A depressão, a ansiedade, o vício, a doença crônica podem ser lidos como sintomas de um conflito entre o desejo do sujeito e as exigências do “normal”. Um conflito que Maté localiza no ambiente social, e que a psicanálise localiza também na estrutura psíquica.
Maté fala dos vícios como tentativas desesperadas de aliviar uma dor que não tem nome. De preencher um vazio que vem de longe. Lacan falaria de gozo. De uma satisfação paradoxal que mantém o sujeito preso ao que o faz sofrer. O vício não é apenas fuga. É também uma forma de gozo. Um modo de repetir uma experiência que, de algum modo, dá sentido ao que, de outro modo, seria puro desamparo.
A cura, para Maté, passa por um “despertar” para a autenticidade. Por reconhecer o trauma, nomear a dor, reconstruir vínculos, ressignificar a história. Para a psicanálise, a cura não é um retorno a uma essência perdida. É uma elaboração simbólica da falta. É aceitar que não há Outro completo, que não há normal que nos salve, que não há roteiro que cubra tudo. É aprender a viver com a falta, sem tentar tapá-la com performances, vícios ou ideais de normalidade.
Isso não significa que Maté e Lacan digam a mesma coisa. Maté é mais otimista em relação à possibilidade de reconexão com uma “essência” saudável. Lacan é mais cético: não há essência, há sujeito. E o sujeito é sempre dividido, sempre barrado. Mas ambos concordam em um ponto crucial: a patologia não está apenas no indivíduo. Está na relação entre o indivíduo e o mundo. Entre o sujeito e o Outro. Entre o desejo e a norma.
Talvez a contribuição mais importante de “O Mito do Normal” para a psicanálise seja lembrar que o Outro não é uma abstração. É uma cultura concreta, com seus valores, suas pressões, seus traumas coletivos. E que a clínica não pode ignorar isso. Não basta interpretar os sonhos se não levamos a sério o mundo que produz os sonhos.
Por outro lado, a psicanálise lembra a Maté que a cura não é simplesmente voltar a uma essência pré-traumática. Porque o trauma também nos constitui. A falta nos constitui. A questão não é apagar as marcas, mas elaborá-las. Fazer com que elas possam ser ditas, pensadas, reinscritas de outro modo na história do sujeito.
No fim, o “normal” que Maté critica e o Outro que Lacan descreve são duas faces da mesma moeda: a ilusão de que há um lugar seguro onde o sofrimento não existe, onde o desejo não conflita, onde a vida se encaixa perfeitamente. A psicanálise e Maté nos convidam a abandonar essa ilusão. E a encarar o que há de mais real em nós: a vulnerabilidade, a falta, o desejo. E a partir daí, talvez, construir um modo de viver que não precise se chamar “normal” para ser digno.
