Mudança
Porque mudar não é apenas melhorar. Mudar é perder. É aceitar que algo do que fomos até aqui terá de cair. E existe um luto silencioso nisso.
4/5/20264 min read


Há mudanças que a gente reconhece como boas com a mesma clareza com que reconhece um médico: elas doem onde têm de doer, mas tendem na direção da vida. E, ainda assim, quando o gesto começa a se firmar, quando o caminho parece finalmente reto, algo se levanta dentro de nós como uma contra-ordem. Não é um argumento. Não é uma nova informação. É uma força que não pede licença e que, sem barulho, devolve o corpo ao lugar de sempre.
Chamo de invisível porque ela raramente se apresenta como inimiga. Às vezes veste a roupa do cuidado. Outras vezes, a da prudência. “Melhor não mexer nisso agora.” “Não é o momento.” “Você vai se arrepender.” Ela sabe falar com a nossa parte mais obediente. Ela conhece o tom exato que parece responsabilidade, mas é recuo. E quando a mudança começa a ganhar consistência, ela encontra um detalhe real, pequeno, suficiente, e o transforma em prova de que o avanço era ilusão.
É aí que a cena se repete: quando as coisas vão bem, algo surge e nos puxa de volta para o buraco. E o buraco tem uma qualidade estranha. Ele não é só sofrimento. Ele é familiaridade. Ele é mapa conhecido. Ele é o lugar onde o sujeito não precisa se arriscar no que ainda não tem nome. Pode parecer paradoxal, mas a repetição não é apenas um erro; muitas vezes é uma forma de fidelidade. Fidelidade ao que organizou a vida até aqui, mesmo que tenha custado caro.
Freud chamou de compulsão à repetição esse retorno ao mesmo que não se explica por vontade consciente. Não se trata de escolher o que dói. Trata-se de uma lógica que insiste, como se o psiquismo tentasse, de novo e de novo, escrever uma frase que nunca conseguiu concluir. A promessa da mudança ameaça interromper essa escrita. E então o velho enredo volta, não porque é melhor, mas porque é o que está disponível quando o novo ainda é um vazio.
Lacan afina essa intuição quando mostra que não repetimos apenas comportamentos. Repetimos posições. Repetimos um modo de nos colocar diante do Outro, de pedir, de esperar, de nos defender, de nos esconder. A força invisível não é um monstro externo. Ela é a satisfação paradoxal de um arranjo que nos mantém presos e, ao mesmo tempo, nos poupa de algo. Esse é o ponto mais incômodo: o buraco também oferece uma espécie de proteção. Uma proteção contra a liberdade que a mudança exige.
Porque mudar não é apenas melhorar. Mudar é perder. É aceitar que algo do que fomos até aqui terá de cair. E existe um luto silencioso nisso. Mesmo quando a mudança é benéfica, ela nos coloca diante do desconhecido, e o desconhecido não é neutro. Ele desorganiza as justificativas, desmonta o álibi, remove a desculpa que sustentava uma identidade. Quando o caminho vai certo, a vida cobra um preço: ela nos pede presença.
Por isso, muitas quedas acontecem justamente no ponto em que a melhora começa a se tornar visível. Não é azar. É estrutura. É o momento em que a pessoa percebe, ainda que sem palavras, que a mudança não será só uma fase bonita. Ela vai exigir continuidade. Vai exigir que o sujeito sustente o que começou. E sustentar é diferente de desejar. Sustentar implica atravessar o tédio, a dúvida, o dia em que nada parece recompensador. A força invisível aproveita esse intervalo e sussurra que é melhor voltar.
Camus escreveu que o absurdo não é um problema a resolver, mas uma tensão a habitar. Há algo de absurdo nesse retorno ao buraco: saber que faz mal e, ainda assim, caminhar para lá como quem volta para casa. Só que habitar a tensão não é resignar. É recusar a fantasia de que haverá um momento em que a mudança se tornará fácil, lisa, natural. Talvez não se torne. Talvez a mudança verdadeira seja precisamente a capacidade de não obedecer automaticamente à força que puxa.
Isso não se conquista com heroísmo. Não se mantém com frases de efeito. Começa mais baixo, mais simples, mais exigente: reconhecer o instante em que a mão vai girar a maçaneta da velha porta. Reconhecer o pensamento que chega como “só hoje”. Reconhecer o pequeno gesto que sabota o que estava funcionando. E, ao reconhecer, não se acusar. A acusação também é um buraco. Ela oferece a mesma familiaridade moral: “eu sou assim”.
Talvez o trabalho seja outro. Fazer da força invisível algo menos invisível. Dar contorno. Escutar o que ela protege. Perguntar, com honestidade, o que a mudança ameaça. Porque toda repetição guarda uma razão, mesmo que seja uma razão que não serve mais. Quando essa razão começa a se revelar, o puxão perde um pouco do seu poder automático.
Então, em vez de imaginar a luta, o gesto a fazer é o que sempre esteve em jogo: ir para o lado certo não elimina o buraco. A queda continua ali, como possibilidade. Mas, aos poucos, ela deixa de ser destino. Esse já é uma mudança profunda: não a promessa da cura, mas a descoberta de que não há uma única forma de existir.
