Mamãe

Quando o amor da mãe passa a depender de uma condição de ser bom, ser grato, ser presente, ser perfeito, o filho aprende que seu valor está sempre em débito.

5/10/20266 min read

Há algo de particularmente cruel no Dia das Mães. Não é a data em si, claro. A ideia de homenagear quem nos deu a vida carrega, em sua origem, um gesto de reconhecimento que ninguém ousaria contestar. Mas o que acontece quando essa data deixa de ser um gesto e se torna uma obrigação? Quando o afeto é medido pelo valor do presente, pela qualidade da mensagem no cartão, pela perfeição do almoço de família? Aí, a gente não está mais falando de amor. Está falando de performance.

Jacques Lacan, em seus seminários, nos ensina que o desejo do outro é o que nos constitui como sujeitos. Desde cedo, aprendemos a existir pelo olhar alheio, a nos reconhecer na expectativa que o outro deposita em nós. A mãe, nesse sentido, é a primeira figura desse olhar fundador. Ela é o espelho onde o bebê busca sua própria imagem, onde o filho se constrói como alguém que importa. Mas Lacan também nos mostra que esse olhar pode se tornar uma cadeia. Quando o amor da mãe passa a depender de uma condição de ser bom, ser grato, ser presente, ser perfeito, o filho aprende que seu valor está sempre em débito. Que nunca será suficiente. Que precisa, a cada ano, provar novamente que merece existir. O Dia das Mães, nessa lógica, não é celebração. É cobrança. É o momento em que a dívida afetiva vem à tona, e o filho se vê diante de um tribunal invisível onde o veredicto é sempre o mesmo: deveria ter feito mais.

E aqui entra o que Freud, em seu texto "O Luto e a Melancolia", nos ajuda a compreender. Para o pai da psicanálise, o luto não é apenas a reação à morte de alguém, mas a resposta a qualquer perda significativa, inclusive a perda de um ideal, de uma fantasia, de uma imagem de perfeição que alimentamos sobre quem deveríamos ser. O Dia das Mães, nesse sentido, mobiliza um luto silencioso em muita gente. É o luto da mãe que percebe que seus filhos não são quem ela imaginou. É o luto do filho que compreende que sua mãe nunca foi e nunca será aquela figura totalmente amorosa e presente que a cultura promete. Freud nos mostra que a melancolia surge quando não conseguimos elaborar essa perda, quando ela permanece presa em nós como uma ferida aberta que não cicatriza. E é exatamente isso que a data comercial faz a cada ano reativando a ferida com a mesma pergunta angustiante: Por que meu amor não é suficiente? Por que minha mãe não é suficiente? Por que não somos a família feliz das propagandas? A melancolia, então, não é patológica aqui. É a resposta mais honesta a uma data que nos obriga a amar de uma maneira que nunca foi possível.

O que torna essa data particularmente dolorosa é que ela promete algo que não pode entregar: a paz. A indústria do consumo nos vende a ideia de que, com o presente certo, com a mensagem certa, com o almoço certo, finalmente haverá harmonia. Mas a harmonia não se compra. Ela não se programa para uma data no calendário. Quando uma mãe se sente sozinha o ano inteiro, quando a relação com os filhos é atravessada por feridas antigas, por silêncios não ditos, por ressentimentos mal curados, nenhum buquê de flores resolve. Pelo contrário: o presente funciona como um espelho que reflete exatamente o que está faltando. E a ausência, nesse dia, grita mais alto do que em qualquer outro. A mãe que não recebeu visita. O filho que não tem mais mãe. A família que se desfez. O amor que se transformou em dever. Tudo isso vem à tona no segundo domingo de maio, como se a data tivesse o poder de escancarar o que o resto do ano tenta esconder.

Lacan diria que isso acontece porque o real sempre retorna. Não importa quantas camadas de simbolização a gente coloque por cima — os presentes, os cartões, as fotos perfeitas para o Instagram, o real, aquilo que não se deixa simbolizar, acaba rompendo. E o real do Dia das Mães, para muita gente, é a dor. É a sensação de que algo deu errado, de que a relação nunca foi o que deveria ter sido, de que o amor, em vez de ser um lugar de encontro, se tornou um campo de batalha. A data, então, não cura. Ela reabre. Ela toca na ferida que nunca fechou direito.

E não é só isso. A sociedade do desempenho, como vivemos hoje, é também uma sociedade da positividade excessiva. Tudo precisa ser bom, lindo, inspirador. Não há espaço para a melancolia, para a ambivalência, para a tristeza que toda relação humana carrega. No Dia das Mães, a positividade se torna tirânica. A mãe que admite estar cansada é vista como ingrata. O filho que não posta homenagem nas redes é visto como desnaturado. A família que não se reúne é vista como desestruturada. A cobrança não vem apenas de dentro, ela vem de todos os lados, das vitrines, das propagandas, dos posts de amigos, da própria linguagem que a data impõe. "Feliz Dia das Mães", dizem todos, como se a felicidade fosse um estado natural, como se a maternidade não fosse também um território de perdas, de renúncias, de desejos não realizados. A positividade obrigatória funciona como uma mordaça. Ela impede que a gente diga o óbvio: que amar é difícil, que ser mãe é difícil, que ser filho é difícil, e que uma data no calendário não muda nada disso.

O capitalismo, é claro, lucra com isso. O Dia das Mães é a segunda maior data comercial do Brasil, movimentando bilhões de reais em presentes que, na maioria das vezes, são mais sobre alívio de culpa do que sobre afeto genuíno. A indústria nos ensina que amar é consumir, que demonstrar carinho é gastar, que a qualidade da relação pode ser medida pelo ticket médio da compra. Mas o que acontece com quem não tem dinheiro? Com quem está endividado? Com quem simplesmente não acredita mais nessa lógica? Essas pessoas são excluídas não apenas do consumo, mas da própria categoria de "bom filho" ou "boa mãe". A pobreza afetiva e a pobreza material se confundem numa única ferida. E a data, em vez de ser inclusiva, se torna um mecanismo de exclusão. Quem não pode performar o amor da maneira correta é deixado para trás, carregando não apenas a dor da relação, mas também a vergonha de não ter conseguido "fazer direito".

Talvez o que a gente precise seja justamente o oposto do que o Dia das Mães propõe. Não mais performance, mas presença. Não mais positividade forçada, mas espaço para a ambivalência. Não mais presentes que compensam, mas palavras que tocam. Lacan nos lembra que o amor verdadeiro não é sobre dar o que o outro quer, mas sobre reconhecer o outro em sua falta, em sua incompletude. Amar é aceitar que a mãe é imperfeita, que o filho é imperfeito, que a relação é imperfeita — e que isso não a invalida. Pelo contrário: é nessa imperfeição que o encontro real pode acontecer. Não no dia marcado no calendário, mas no dia em que alguém finalmente diz "estou aqui, com tudo que sou e com tudo que não sou".

O Dia das Mães, enquanto data comercial e cobrança social, não vai desaparecer. Mas a gente pode escolher como se relacionar com ela. Pode escolher não participar. Pode escolher ser honesto. Pode escolher dizer que está doendo, que está faltando algo, que a data abre uma ferida que o resto do ano consegue manter mais ou menos fechada. E talvez, ao nomear essa dor, a gente encontre algo que nenhum presente pode comprar: a possibilidade de um amor que não precisa ser perfeito para ser real. Um amor que resiste às cobranças do capital, às expectativas sociais, às fantasias de uma maternidade idealizada. Um amor que, na falta, no vazio, na imperfeição, ainda consegue dizer: eu existo para você. E isso, por mais simples que pareça, é mais do que qualquer data pode oferecer.