Jouhatsu

O sujeito não é o que parece ser. E às vezes, a única forma de encontrar quem somos é deixar de ser quem fingimos ser.

5/8/20265 min read

Há momentos em que a vida parece um tecido que se desfaz pelas bordas. Não de uma vez, mas devagar, fio por fio, até que reste apenas a sensação de estar preso em algo que já não se reconhece. É nesse limiar que algumas pessoas fazem uma escolha radical: não morrer, mas desaparecer. No Japão, existe até um nome para isso. Chamam de jouhatsu: evaporação. E, curiosamente, não é metáfora. São pessoas que, todos os anos, abandonam tudo o que construíram — emprego, família, nome, dívidas — e somem sem deixar rastro, como se a água de um copo se evaporasse numa tarde quente.

O que me chama atenção no jouhatsu não é o ato de fugir em si. Fugir, afinal, é um impulso humano antigo. O que me intriga é a forma como essa fuga se organiza. No Japão, existem empresas especializadas — as yonige-ya, ou "lojas de fachada" — que ajudam nesse desaparecimento planejado. Mudanças noturnas, documentos novos, celulares sem rastro. Tudo para que a pessoa possa renascer em outro lugar, com outra identidade, longe do peso do que deixou para trás. É quase como se a sociedade japonesa tivesse criado uma infraestrutura inteira para abrigar quem não suporta mais ser quem é.

Mas por que alguém chega a esse ponto? As razões são muitas: dívidas impagáveis, casamentos destruídos, a vergonha de ter perdido o emprego, a pressão insuportável de uma cultura que exige perfeição e silêncio ao mesmo tempo. No Japão, deixar uma empresa é visto como desonra. Pedir ajuda é admitir fraqueza. E a fraqueza, naquela cultura, não é apenas um sentimento — é uma mancha social que se espalha pela família inteira. Então, para alguns, desaparecer parece menos doloroso do que enfrentar o olhar dos outros. Menos doloroso do que o suicídio, que também grassa por lá com números assustadores. O jouhatsu é, em certo sentido, uma terceira via: não se mata, mas se aniquila socialmente. Apaga-se o rosto para sobreviver.

Lacan, em sua teoria do desejo, nos lembra de algo que parece contraditório à primeira vista: o desejo do Outro é o que nos constitui como sujeitos. Desde cedo, aprendemos a desejar o que os outros desejam de nós. O filho que estuda medicina para agradar o pai, o funcionário que aceita horas extras infinitas para não desapontar o chefe, a mulher que silencia sua infelicidade para manter a harmonia familiar — todos esses são modos de existência moldados pelo desejo alheio. Mas Lacan também nos alerta: quando o desejo do Outro se torna excessivo, opressivo, ele deixa de ser o lugar onde nos reconhecemos e passa a ser uma prisão. E é nesse ponto que o sujeito entra em colapso. Não é à toa que muitos jouhatsu relatam a mesma sensação: não aguentavam mais corresponder às expectativas. Não era a vida que os sufocava, era a versão deles mesmos que haviam sido obrigados a construir.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano que vive na Alemanha, desenvolveu uma ideia que ilumina bem esse fenômeno. Ele fala da sociedade do desempenho, na qual não somos mais explorados por um dono ou por um regime autoritário, mas por nós mesmos. A pressão não vem de fora, com um chicote — ela vem de dentro, como uma voz que nos diz que podemos sempre ser mais produtivos, mais felizes, mais realizados. Han chama isso de "burnout" não como doença, mas como sintoma de uma cultura que transformou o sujeito em seu próprio explorador. No Japão, essa lógica do desempenho atinge níveis extremos. O trabalhador não é apenas esperado que produza, ele é esperado que se sacrifique. E quando não consegue, a culpa não é do sistema. É dele.

O jouhatsu, nessa leitura, não é apenas um ato de covardia ou de desespero. É também um protesto mudo, uma forma de dizer "não" quando não há mais palavras para isso. É o corpo que se recusa a continuar encenando uma vida que não é sua. E talvez seja por isso que o fenômeno cause tanta estranheza: porque ele nos confronta com uma pergunta que preferimos não fazer. Quantas vezes, nós mesmos, não sentimos vontade de evaporar? Não de morrer, mas de deixar para trás a versão de nós que foi montada aos poucos, com peças emprestadas de outros? Quantas vezes olhamos para nossa rotina, nossos compromissos, nossos papéis, e sentimos que estamos vivendo uma vida que não pedimos?

A diferença, claro, é que aqui no Brasil não temos yonige-ya. Não temos empresas que nos ajudem a desaparecer. Mas isso não significa que não desaparecemos de outras formas. Desaparecemos no álcool, nos relacionamentos vazios, no trabalho compulsivo, nas redes sociais onde construímos avatares mais felizes do que nós mesmos. Desaparecemos na rotina que nos anestesia, na família que nos aprisiona, na carreira que nos consome. O jouhatsu japonês é apenas uma versão mais literal, mais visível, de algo que acontece em todo lugar: a fuga do sujeito de si mesmo.

O que me comove nessas histórias é a tenacidade com que essas pessoas buscam um recomeço. Mesmo vivendo na clandestinidade, em bairros marginalizados, sem documentos, sem nome, sem rede de proteção — elas preferem isso à vida que tinham. Isso não é heroísmo. Mas também não é apenas derrota. É algo mais complexo, mais humano: a recusa absoluta de continuar sendo quem não se é. E talvez seja nessa recusa que encontremos o que resta de verdadeiro em nós. Não a versão polida, aprovada, funcional, mas o núcleo duro que diz "não", mesmo quando tudo ao redor exige que digamos "sim".

Lacan costumava dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Mas talvez seja mais preciso dizer que o inconsciente é o que sobra quando a linguagem falha. Quando as palavras que usamos para nos descrever já não servem mais. Quando "pai", "marido", "funcionário", "filho" se tornam gaiolas. O jouhatsu é, de certa forma, o corpo falando quando a linguagem não consegue mais. É o gesto de alguém que não encontra outra forma de dizer "isso não é mais suportável" senão sumindo.

Não sei se devemos julgar essas pessoas. Não sei se devemos julgar ninguém que chega ao limite. O que sei é que, ao ler sobre elas, sinto algo que não consigo nomear direito. Não é piedade. É quase reconhecimento. Como se, em cada história de evaporação, eu vislumbrasse um pedaço de mim que também já pensou em sumir. Não de morrer. De colocar uma mochila nas costas e não olhar para trás. Mas de deixar para trás tudo o que me foi imposto e começar de novo, em algum lugar onde ninguém saiba meu nome. O jouhatsu nos lembra de algo que a psicanálise há muito sabe: o sujeito não é o que parece ser. E às vezes, a única forma de encontrar quem somos é deixar de ser quem fingimos ser.