Japão

Do ponto de vista da clínica, o desafio não é “decidir” quem é ou não analisável. O desafio é escutar o que vem do sujeito, mesmo quando seus significantes nos parecem estranhos.

6/7/20263 min read

Há uma frase que às vezes circula nos corredores de cursos de psicologia e psicanálise, quase como uma piada de mau gosto: “os orientais não são analisáveis”. Quem a repete parece estar brincando, mas também está falando sério. Como psicanalista de orientação lacaniana, essa afirmação me incomoda profundamente — não só por seu tom preconceituoso, mas porque revela um equívoco sobre o que é o sujeito do inconsciente.

Quando alguém diz que “os orientais” — um termo tão vago quanto “os ocidentais” — não são analisáveis, está pressupondo que a psicanálise só funciona dentro de um certo modelo de subjetividade, um certo jeito de falar, de sofrer, de desejar. Como se o inconsciente tivesse passaporte, fosse cidadão apenas de algumas culturas. Lacan nos ensina exatamente o contrário: o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e onde há linguagem, há sujeito dividido, há falta, há desejo. Não importa se a língua é português, japonês ou mandarim; o que importa é que há palavras que falham, que escorregam, que insistem — e é aí que o inconsciente aparece.

Pensar que uma pessoa nascida no Japão, na China, na Coreia ou em qualquer outro lugar dito “oriental” seria, por definição, inacessível à análise, é confundir diferença cultural com ausência de estrutura psíquica. É como dizer: “essa pessoa fala outra língua, então não tem inconsciente”. Mas o inconsciente não é propriedade de uma cultura; ele é o que escapa a toda identidade fixa, inclusive à identidade cultural.

Talvez essa ideia venha de um certo medo do desconhecido. Quem nunca teve contato próximo com outras culturas pode projetar nelas uma imagem de opacidade total: “eles são muito diferentes, não dá para entender”. Lacan nos lembra que o Outro — aquele lugar simbólico de onde vêm os significantes — sempre tem algo de opaco, de inacessível. Mas isso vale para qualquer sujeito, não só para “os orientais”. Achar que só o outro cultural é incompreensível é uma forma de não encarar que nós mesmos também somos estrangeiros para nós mesmos.

Há ainda uma fantasia, muito comum, de que em certas culturas “o indivíduo some no coletivo”. Como se lá não houvesse conflitos íntimos, segredos familiares, sintomas que não se explicam só pela tradição. É claro que as formas de sofrer e de desejar podem ser diferentes. Mas o sofrimento existe. O desejo existe. Os sonhos, os esquecimentos, os atos falhos — tudo isso atravessa fronteiras. A psicanálise não exige que todo mundo fale como um europeu do século XIX; ela exige apenas que haja uma fala, e que essa fala carregue marcas de um sujeito que não se reduz ao que ele pensa que é.

Do ponto de vista da clínica, o desafio não é “decidir” quem é ou não analisável. O desafio é escutar o que vem do sujeito, mesmo quando seus significantes nos parecem estranhos. Um analista que trava diante de uma cultura diferente pode sentir-se perdido, sem referências. Mas esse “não saber” pode ser justamente a condição para uma escuta mais honesta. Lacan fala do analista como sujet supposé savoir — aquele que é suposto saber. Mas esse suposto saber é, no fundo, uma ficção. O analista não sabe; ele escuta. E escutar alguém de outra cultura pode nos lembrar disso de forma mais radical.

Quando nos deparamos com um sujeito que vem de um universo simbólico muito distante do nosso, podemos cair na tentação de reduzi-lo a estereótipos: “os japoneses são assim”, “os chineses são assado”. A psicanálise lacaniana nos convida a fazer o oposto: suspender essas generalizações e perguntar: o que este sujeito singular faz com os significantes que herdou? Como ele os repete, os transforma, os sofre? A cultura não é uma camisa de força que impede a análise; é um tecido de significantes dentro do qual o sujeito tenta se inventar.

Por isso, a afirmação de que “os orientais não são analisáveis” me parece menos uma descrição sobre eles e mais uma confissão sobre nós. Confissão de um medo de encontrar um Outro que não se deixa domesticar pelos nossos conceitos, pelas nossas teorias, pelos nossos preconceitos. Confissão de uma dificuldade em aceitar que o inconsciente não tem pátria.

Se a psicanálise tem alguma universalidade, não é porque todos somos iguais, mas porque todos somos divididos. E essa divisão não escolhe latitude nem longitude. Ela habita todo sujeito que fala — inclusive aquele que, de longe, chamamos de “oriental”. Cabe a nós, analistas, não fechar a porta antes mesmo de escutar o que esse sujeito tem a dizer. Porque, no fim das contas, é sempre do encontro com o que não entendemos que nasce a possibilidade de uma análise verdadeira.

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