Ilusão

Talvez a lição mais dura de Hobbes, lida com a psicanálise, seja que a bondade espontânea não basta. Que precisamos de estruturas que nos protejam de nós mesmos.

6/15/20264 min read

Imagine um mundo onde não há garantias. Onde o outro pode ser amigo ou inimigo, e você nunca sabe ao certo. Onde cada um é, ao mesmo tempo, juiz e parte. Onde a justiça é o que você consegue impor, e a segurança é o que você consegue defender. Esse mundo não é uma ficção distante. É a descrição que Thomas Hobbes faz do estado de natureza: uma condição em que, na ausência de um poder comum que nos obrigue, vivemos em guerra de todos contra todos.

Hobbes não está falando de uma guerra constante com armas e trincheiras. Está falando de uma disposição permanente para o conflito. De uma desconfiança estrutural. De uma lógica em que, se não houver algo maior que nos contenha, cada um fará o que julgar necessário para sobreviver, para prosperar, para não ser dominado. E nesse cálculo, o outro aparece como ameaça em potencial.

A famosa frase “o homem é o lobo do homem” não é sobre uma maldade inata. É sobre uma situação. Na ausência de lei e de soberano, os interesses se chocam. A competição por recursos, por reconhecimento, por segurança, gera um cenário onde a violência é sempre uma possibilidade real. E onde a possibilidade da violência já é, em si, uma forma de guerra.

Hobbes descreve essa condição como insuportável. Não só pelo risco concreto de morrer, mas pela angústia de viver sempre em alerta. Sempre calculando. Sempre se protegendo. Sempre desconfiando. A vida se torna “solitária, pobre, desagradável, brutal e curta”. Não porque as pessoas sejam monstros por natureza, mas porque a estrutura das relações as coloca umas contra as outras.

A psicanálise chega aqui não para contradizer Hobbes, mas para aprofundar a pergunta: o que há em nós que nos leva a essa guerra? Freud falava da pulsão de morte, dessa tendência à destruição, à repetição do que dói, ao retorno ao inorgânico. Lacan falava do gozo, dessa satisfação paradoxal que nos prende ao que nos faz sofrer. A guerra de todos contra todos não é apenas uma estratégia de sobrevivência. É também uma forma de gozo: a excitação do conflito, a sensação de estar vivo no risco, a ilusão de que, se vencer, finalmente será reconhecido.

O Leviatã hobbesiano, nessa leitura, não é só um contrato social. É uma figura do Nome do Pai, da lei simbólica que organiza o desejo e interdita a violência direta. A submissão a um poder comum é o preço que pagamos para sair da guerra permanente. Mas essa saída não elimina a pulsão. Apenas a desloca. A guerra continua, mas em outros registros: na competição econômica, nas rivalidades profissionais, nos conflitos familiares, nas guerras simbólicas onde o outro é humilhado, excluído, diminuído.

Hoje, não vivemos mais no estado de natureza hobbesiano, pelo menos não da maneira literal. Temos leis, instituições, polícia, tribunais. Mas a lógica do “todos contra todos” ainda aparece, de formas mais sutis. Na competição desenfreada pelo sucesso, na desconfiança generalizada, na sensação de que, no fundo, cada um está por si. Na ideia de que, se você não se cuidar, ninguém vai cuidar de você. E, para a psicanálise, isso não é apenas uma herança social. É também a expressão de uma estrutura psíquica onde o outro é sempre potencial rival, potencial ameaça, potencial objeto de gozo.

Hobbes nos lembra que a paz não é natural. É uma construção. Exige que abramos mão de algo. Que aceitemos limites. Que confiemos, ainda que precariamente, em algo maior que nossos interesses imediatos. A psicanálise acrescenta: essa renúncia não é apenas externa. É interna. Envolve aceitar que não podemos ter tudo, que não podemos ser tudo, que há uma lei que nos barra. E que, sem essa barra, voltamos facilmente à lógica do cada um por si, onde o desejo se confunde com a vontade de dominar, de possuir, de anular o outro.

Isso não significa que o Leviatã seja a única resposta possível. Outros pensadores questionaram o preço dessa segurança: a perda de liberdade, a concentração de poder, o risco de abuso. A psicanálise questiona o preço psíquico: o que acontece quando a lei é tão rígida que sufoca o desejo? Ou quando é tão fraca que não consegue conter a pulsão? O equilíbrio é delicado. A paz social depende de uma lei que funcione. A paz psíquica depende de uma relação com essa lei que não seja apenas submissão cega, mas elaboração simbólica.

Talvez a lição mais dura de Hobbes, lida com a psicanálise, seja que a bondade espontânea não basta. Que precisamos de estruturas que nos protejam de nós mesmos. Que o medo da violência pode ser, paradoxalmente, o que nos leva a construir a paz. E que, sem algum tipo de contrato, explícito ou implícito, a tendência é que a vida se organize como uma guerra de todos contra todos, mesmo quando não há tiros.

A pergunta que fica não é se Hobbes estava certo em todos os detalhes. É se conseguimos imaginar uma convivência que não dependa apenas da ameaça do castigo, mas que também cultive a confiança, a solidariedade, o reconhecimento do outro como semelhante. E, ao mesmo tempo, se somos honestos o suficiente para admitir que, sem alguma lei e algum poder comum, a sombra do “todos contra todos” nunca está totalmente longe. E que essa sombra habita também em nós, na forma de uma pulsão que, se não for simbolizada, pode voltar a se expressar como guerra.

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