Humanos

Talvez a única verdade sobre os humanos seja essa: somos criaturas que sabem que não sabem. E seguimos assim, incompletos, absurdos, desejantes.

6/3/20262 min read

Há algo de estranho em dizer que somos humanos. A palavra soa como um rótulo, uma classificação zoológica, como se bastasse pertencer à espécie Homo sapiens para saber o que isso significa. Mas ninguém jamais se sentiu completamente humano. Sempre falta alguma coisa. Lacan chamava isso de falta, o objet petit a, aquele algo que nos falta e que, justamente por faltar, nos move. Não é um objeto que se possa encontrar no mundo. É o vazio que faz a máquina do desejo funcionar. Somos humanos porque algo em nós não fecha, não se completa, não descansa.

Albert Camus, em O Mito de Sísifo, começa com uma frase que deveria estar pregada na porta de todo consultório: "Há apenas um problema filosófico realmente sério: o suicídio". Não porque a vida deva ser recusada, mas porque a pergunta pelo sentido precede todas as outras. O absurdo nasce dessa confrontação entre o impulso humano de buscar respostas e o silêncio indiferente do universo. Não há sentido dado. Não há roteiro. E é exatamente isso que nos torna humanos: não a posse de um sentido, mas a capacidade de continuar mesmo sabendo que ele não nos foi entregue de bandeja.

A geração que cresceu entre o analógico e o digital carrega uma sensação particular dessa condição. Viúva de uma estabilidade que nunca foi sua, aprendeu a se virar em silêncio, a adaptar-se sem fazer alarde, a construir sentido com as próprias mãos enquanto o mundo mudava de velocidade. Não é heroísmo. É sobrevivência com dignidade. E talvez seja aí, nessa tensão entre o desejo de firmeza e a experiência da volatilidade, que o humano se revela mais verdadeiro: não como essência, mas como pergunta permanente.

Ser humano não é ter respostas. É suportar a pergunta. É viver com o vazio sem tentar preenchê-lo com barulho, consumo ou certezas baratas. Lacan diria que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e isso significa que somos falados por algo que não dominamos. Não somos donos de nós mesmos. Camus diria que devemos imaginar Sísifo feliz, empurrando a pedra sabendo que ela cairá de novo. A felicidade está na lucidez, não na ilusão de chegada.

Talvez a única verdade sobre os humanos seja essa: somos criaturas que sabem que não sabem. E seguimos assim, incompletos, absurdos, desejantes. Não porque haja uma recompensa final, mas porque o próprio caminhar já é a forma que encontramos de existir. Não há outra humanidade além dessa. Não há outra vida além da que vivemos com todas as suas faltas. E talvez, no fim das contas, isso seja suficiente. Ou, pelo menos, seja tudo o que temos.

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