Fadiga

A psicanálise não promete resolver essa angústia. Ela apenas oferece um espaço onde o teatro pode ser suspenso, onde o sujeito pode, por uma hora, não ser ninguém além de quem fala o que vier, sem roteiro, sem expectativa de resultado.

5/23/20263 min read

Há quem acorde e, antes mesmo de abrir os olhos, estenda a mão em busca do celular. Não por urgência, não por uma notícia que espere, mas por um hábito que se instalou tão silenciosamente quanto a respiração. A tela acende. As notificações aparecem. E por um instante, quase imperceptível, há uma sensação de que o dia só começa quando alguém, lá fora, confirma que você existe.

Não se trata de vaidade. Ou talvez se trate, mas de uma vaidade tão entranhada que já não se reconhece como tal. É algo mais próximo de uma fome. A fome de ser visto, de ser notado, de ocupar, ainda que por segundos, o campo visual de outro. E quando esse olhar não vem, ou vem em quantidade insuficiente, o que se instala não é apenas a frustração, é uma espécie de vazio existencial, como se a própria substância do ser dependesse de um espelho que, de repente, se recusasse a refletir.

Mas há um cansaço que poucos nomeiam. O cansaço de ser visto demais, e ao mesmo tempo nunca o suficiente. De postar, de compartilhar, de estar disponível, de construir uma versão de si que seja legível para os outros e de perceber, no fim do dia, que essa versão esgotou tudo o que havia de verdadeiro. Não porque seja mentira. Ao contrário: ela é, muitas vezes, meticulosamente honesta. O problema é que a honestidade performática também é performance. E toda performance exige um ator que, em algum momento, precisa descansar.

A psicanálise lacaniana nos lembra de que o sujeito se constitui no campo do outro. Somos seres falantes porque somos vistos, nomeados, reconhecidos antes mesmo de nos reconhecermos. O olhar do outro não é acessório, é estrutural. Mas o que acontece quando o outro se multiplica em mil olhares digitais, e nenhum deles sustenta? Quando cada curtida é um reconhecimento instantâneo, e cada ausência de curtida é um pequeno desastre simbólico? O espelho se fragmenta. A imagem que retorna não é mais uma, mas mil, e em cada uma delas o sujeito aparece de um jeito diferente, nunca inteiro, sempre em débito consigo mesmo.

Hannah Arendt, em sua distinção entre labor, work e action, nos ajuda a pensar isso com mais clareza. Para ela, a action é a aparição no espaço público, o ato de revelar quem se é através do que se faz. Mas há uma diferença crucial entre aparecer e produzir. Quando nossa presença no mundo se torna uma forma de trabalho quando cada post é uma peça, cada história é um produto, cada sorriso é um conteúdo, a action se esgota. O espaço do aparecer vira fábrica de imagem. E a fábrica, por mais eficiente que seja, não é lugar de vida.

A fadiga de ser vido é, talvez, a confusão entre esses dois modos. Vivemos como se estivéssemos sempre em cena, e esquecemos que a cena exige bastidores. Esquecemos que há um lugar íntimo, silencioso, quase invisível onde a existência não precisa ser testemunhada para ser real. O problema é que esse lugar se tornou cada vez mais difícil de encontrar. Não porque não exista, mas porque nós mesmos deixamos de acreditar que ele vale alguma coisa. Se ninguém viu, não aconteceu. Se não foi postado, não foi vivido. E assim, aos poucos, confundimos a existência com a exposição.

Mas e se o cansaço de ser visto fosse, na verdade, o cansaço de nunca ter sido realmente visto? Se todos esses olhares, somados, não conseguissem fazer o que um único olhar faz quando escuta sem julgar, quando permanece sem exigir, quando reconhece que há, no outro, algo que nunca será totalmente revelável? A psicanálise não promete resolver essa angústia. Ela apenas oferece um espaço onde o teatro pode ser suspenso, onde o sujeito pode, por uma hora, não ser ninguém além de quem fala o que vier, sem roteiro, sem expectativa de resultado.

Não há dica para isso. Não há técnica de autocuidado que restaure o que a exposição constante desgasta. O que resta é a pergunta, incômoda e persistente: o que sobra de mim quando ninguém está olhando? E será que o que sobra ainda sei reconhecer?

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