Escutar

A análise não promete tirar a dor. O que ela oferece é um espaço onde a dor pode ser dita, talvez pela primeira vez, sem que alguém tente imediatamente consertar você.

4/24/20262 min read

A dor não avisa antes de chegar. Ela simplesmente aparece — e quando aparece, não pede para ser entendida. Ela exige apenas que você a sinta.

Vivemos num tempo que não sabe o que fazer com a dor. Temos remédio para tudo: dor de cabeça, dor nas costas, dor de existir. E quando não há remédio, há distração. O celular, o trabalho, a série, o álcool. Qualquer coisa para não ficar sozinho com o que dói. Mas a dor, quando é empurrada para baixo do tapete, não some. Ela muda de lugar. Vai parar no estômago, na insônia, na raiva que você solta em quem não tem nada a ver com isso.

A psicanálise tem uma ideia que assusta de início: a dor também pode ser uma forma de estar no mundo. Não que alguém queira sofrer. Mas às vezes o sofrimento se repete porque, por trás dele, há algo que o sustenta. Um padrão, uma lógica, uma história que a gente não consegue ver sozinho. Freud chamou isso de compulsão à repetição: a tendência de reviver o mesmo sofrimento, com pessoas diferentes, em situações diferentes, como se o inconsciente insistisse em mostrar algo que a gente ainda não quis olhar.

Lacan, por sua vez, falou de uma dor mais silenciosa: a dor de existir. Não a dor de ter perdido algo, mas a dor de ser alguém que um dia não será mais. A dor de sentir que falta alguma coisa — e não saber o quê. Essa falta não tem nome, não tem endereço, não tem solução prática. Ela é constitutiva. Faz parte de ser humano. E a cultura do desempenho, essa pressão para ser sempre produtivo, sempre feliz, sempre realizado, só piora as coisas. Porque ela diz que a dor é um defeito. Que se você está mal, é porque não está tentando o suficiente.

Mas a dor não é defeito. É sinal. Sinal de que algo precisa ser escutado — não resolvido às pressas, mas escutado. A análise não promete tirar a dor. O que ela oferece é um espaço onde a dor pode ser dita, talvez pela primeira vez, sem que alguém tente imediatamente consertar você. E no ato de dizer, algo muda. Não a dor em si, mas a relação com ela. Você deixa de ser vítima do que sente e passa a ser alguém que consegue nomear, que consegue olhar, que consegue — aos poucos — suportar.

Porque suportar não é o mesmo que aguentar. Aguentar é resistir. Suportar é fazer da dor um lugar onde algo novo pode nascer. Não a ausência de dor, mas a presença de alguém que finalmente a escuta.