Emoção
Quando o sujeito começa a escutar o que seu corpo diz, a perceber os padrões emocionais que antecedem as crises, ele deixa de ser apenas um portador passivo do vírus e se torna um agente de sua própria história.
5/27/20263 min read


Há quem diga que a herpes é apenas um vírus. E, do ponto de vista médico, de fato o é: o Herpes Simplex, uma infecção que, uma vez contraída, permanece latente no organismo para sempre, aguardando o momento certo para se manifestar. Mas quem já convive com as crises recorrentes sabe que elas raramente aparecem ao acaso. O estresse, a ansiedade, a frustração, o cansaço emocional — todos esses estados parecem acordar o vírus como se ele respondesse a um alarme silencioso. A pergunta que fica é: por que o corpo escolhe justamente esses momentos para externalizar o que está acontecendo por dentro?
A ciência já responde parte dessa questão. Quando o sistema nervoso percebe uma ameaça emocional, ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, liberando cortisol em quantidades excessivas. Esse hormônio do estresse suprime a imunidade, criando um ambiente favorável à replicação do vírus. Ou seja, o corpo, sob pressão psicológica, deixa de defender e o herpes aproveita a brecha. Mas essa explicação fisiológica, embora precisa, ainda deixa de fora algo essencial: o que o corpo está tentando dizer com essa erupção? Por que justamente ali, naquele momento, a pele decide se tornar visível?
Para Jacques Lacan, o corpo não é apenas uma máquina biológica. Ele é o lugar onde o inconsciente se inscreve, onde o que não pode ser dito em palavras encontra outras formas de expressão. A herpes, nesse sentido, pode ser lida como um sintoma: não no sentido médico, mas no sentido psicanalítico. É o corpo que fala quando a fala falha. É a pele que grita o que a boca calou. O sujeito pode não ter consciência do que o aflige, mas o corpo, ele, sabe. E quando a palavra não encontra saída, o sintoma ocupa o lugar da verdade. A erupção na pele torna-se, então, uma espécie de mensagem cifrada, escrita numa linguagem que a medicina lê como patologia, mas que a psicanálise pode ler como significante.
Karen Horney, psicanalista que dedicou sua obra à compreensão da ansiedade e dos conflitos emocionais, oferece uma contribuição valiosa aqui. Para ela, a ansiedade não é apenas um estado passageiro, mas uma força estruturante da personalidade. O indivíduo que vive sob tensão constante desenvolve mecanismos de defesa rígidos, como a busca excessiva por aprovação, a autossuficiência forçada ou a submissão aos outros. Essas estratégias, embora pareçam funcionar no dia a dia, geram um desgaste profundo. A herpes, nesse cenário, pode ser entendida como o ponto de ruptura de uma tensão que se acumulou silenciosamente. O corpo, exausto de sustentar uma fachada, externaliza o colapso. É como se a pele dissesse: chega, não aguento mais carregar sozinho.
A psicanálise não cura o vírus. Isso é tarefa da medicina. Mas ela pode fazer algo que os antivirais não conseguem: transformar o sintoma em significante. Quando o sujeito começa a escutar o que seu corpo diz, a perceber os padrões emocionais que antecedem as crises, ele deixa de ser apenas um portador passivo do vírus e se torna um agente de sua própria história. A análise não promete a ausência de sofrimento, mas oferece a possibilidade de que esse sofrimento deixe de ser um acaso biológico e se torne um campo de investigação subjetiva. Cada crise passa a ser uma oportunidade de pergunta, e não apenas de remédio.
A herpes, vista por essa lente, deixa de ser apenas uma erupção incômoda. Ela se torna uma oportunidade de escuta. O corpo pede pausa, pede atenção, pede que se olhe para dentro. E talvez seja justamente nesse olhar que o vírus encontre menos espaço para se manifestar. Não porque a psicanálise o elimine, mas porque ela muda o terreno emocional em que ele costuma florescer. Quando o sujeito deixa de viver num estado de alerta permanente, quando aprende a nomear o que antes apenas sentia, o corpo respira. E um corpo que respira é um corpo que defende melhor.
