Deus
Talvez a questão mais honesta não seja “Deus existe?”, mas “o que fazemos com essa palavra?”. O que ela permite que digamos.
6/10/20262 min read


Não sei se Deus existe. Sei que a ideia de Deus existe e que ela faz algo concreto na vida das pessoas. Algo que não se reduz a crença ou descrença, a fé ou ateísmo. Algo que tem a ver com o modo como nos posicionamos diante do que não controlamos, do que não entendemos, do que nos ultrapassa.
Para alguns, Deus é um nome para o que dá sentido ao sofrimento. Alguém que, mesmo quando não responde, pelo menos escuta. Outros usam esse nome para o que tira sentido: um juiz invisível, uma culpa sem rosto, uma dívida que nunca se paga. Em ambos os casos, Deus não é apenas uma ideia, é uma função. Uma maneira de organizar o que, de outro modo, seria puro acaso.
Há quem diga que Deus é uma projeção. Que criamos um pai no céu porque não suportamos a solidão de sermos adultos responsáveis por nós mesmos. Há quem diga que Deus é uma experiência, algo que se sente, não que se prova. E há quem diga que Deus é um significante vazio, uma palavra que cada um preenche com o que precisa: amor, lei, medo, esperança.
Talvez a questão mais honesta não seja “Deus existe?”, mas “o que fazemos com essa palavra?”. O que ela permite que digamos, ou que não digamos? Que desejos ela autoriza? Que culpas ela fixa? Que alívios ela promete?
Na clínica, o que importa não é se o paciente “acredita” ou não. É como essa crença ou essa descrença estrutura sua vida. Como ela aparece nos sonhos, nas escolhas, nas repetições. Como ela cala certas perguntas e abre outras. Como ela funciona como um Outro que nunca se cansa de escutar ou que nunca perdoa.
Deus pode ser o nome do que falta. Do que sempre escapa. Do que nunca se deixa capturar totalmente pela linguagem. Nesse sentido, talvez Deus seja um nome para o Real, aquilo que não se simboliza, mas insiste. O que volta nos sintomas, nos acasos, nos encontros que parecem destino.
Não pretendo convencer ninguém de nada. Apenas lembrar que, quando falamos de Deus, estamos também falando de nós mesmos, do nosso medo da finitude, da nossa necessidade de sentido, da nossa dificuldade em aceitar que algumas perguntas não têm resposta. E que, às vezes, é mais honesto habitar a pergunta do que fingir que a resposta já está dada.
Se Deus existe ou não, não sei. Sei que a palavra existe. E que ela nos modifica, mesmo quando a rejeitamos. Talvez isso já seja suficiente para pensar.
