Desistir
Eu não aguento mais carregar isso
8/4/20263 min read


Há um pensamento que volta, mesmo quando tudo parece estar indo bem. Um sussurro que diz: “e se eu desistisse de tudo?”. Não de uma coisa só, de um projeto, de um relacionamento. De tudo. Do trabalho, dos planos, das responsabilidades, da vida como a conhecemos. Um desejo de jogar a toalha de uma vez. De parar de tentar. De deixar a correnteza levar.
Esse pensamento não é necessariamente sobre morrer. Muitas vezes é sobre uma espécie de morte simbólica. De sumir. De não ter mais que responder, explicar, justificar. De não ter mais que carregar o peso de ser quem se é. De não ter mais que sustentar a imagem que os outros têm de nós. De não ter mais que fingir que está tudo bem quando não está.
Na psicanálise, isso pode ser lido como um encontro com a pulsão de morte. Não no sentido de querer se matar, mas de querer voltar a um estado de quietude, de inércia, de não desejo. Um estado onde não há exigências, não há expectativas, não há fracassos. Onde a vida para de pressionar. Onde o sujeito para de ter que ser sujeito.
Há também um gozo nessa fantasia. Um alívio paradoxal em imaginar que tudo poderia acabar. Que não haveria mais contas para pagar, reuniões para comparecer, pessoas para agradar. Um gozo em se entregar ao cansaço, ao desânimo, à impotência. Em dizer: “chega”. Em parar de lutar. Em deixar que a vida aconteça sem a nossa participação ativa.
Esse pensamento costuma aparecer nos momentos de maior pressão. Quando as demandas se acumulam. Quando as expectativas se tornam insuportáveis. Quando o sujeito sente que não dá conta de ser o que os outros esperam que ele seja. O que ele mesmo espera que seja. Aí, a ideia de desistir de tudo surge como uma saída. Uma fuga. Uma maneira de dizer: “eu não aguento mais carregar isso”.
Mas desistir de tudo também pode ser uma forma de protesto. Um modo de dizer, mesmo que só para si mesmo, que algo está muito errado. Que a vida que se está vivendo não é a que se quer. Que os valores que se está seguindo não são os que se acredita. Que a imagem que se está sustentando não é a que se sente por dentro. Desistir, nesse sentido, é uma tentativa desesperada de recuperar alguma autenticidade. De parar de performar. De parar de fingir.
Na clínica, isso aparece de muitas formas. O paciente que pensa em largar o emprego, o casamento, a cidade, os estudos. Que fantasia começar do zero em outro lugar, como se a mudança geográfica pudesse apagar a história. Ou que fantasia simplesmente parar. Ficar em casa. Não fazer nada. Deixar o mundo girar sem ele.
A psicanálise não condena esse pensamento. Tenta escutá lo. O que está por trás do “desistir de tudo”? Que demanda insuportável? Que ideal impossível? Que gozo em sofrer? Que repetição? Que história não elaborada? O desejo de desistir é, muitas vezes, um sintoma. Um modo de o sujeito dizer que algo não está funcionando. Que a vida que ele está vivendo não é a sua. Que ele está seguindo um roteiro que não escreveu.
O trabalho analítico não é convencer o paciente a não desistir. É ajudá lo a entender por que ele quer desistir. O que ele quer desistir de fato. Será que é de tudo? Ou será que é de uma certa imagem de si? De uma certa expectativa? De uma certa maneira de viver que já não cabe mais?
Muitas vezes, o que parece ser desejo de desistir de tudo é, na verdade, desejo de desistir de uma parte. De uma máscara. De um falso self. De um modo de vida que foi imposto pelo Outro — família, sociedade, cultura — e que o sujeito nunca questionou verdadeiramente.
Desistir, então, pode ser um movimento necessário. Não de aniquilação, mas de separação. De largar o que não é seu. De dizer não ao que não quer. De escolher o que quer. Isso não é desistir de tudo. É desistir de algo para poder viver outra coisa.
O pensamento de desistir de tudo nos rodeia porque somos seres finitos, cansados, divididos. Porque carregamos expectativas, culpas, histórias. Porque, às vezes, a vida pesa. E a fantasia de deixar tudo para trás é uma maneira de aliviar esse peso, mesmo que por um instante.
A psicanálise nos convida a não fugir desse pensamento. A não reprimi-lo como se fosse pecado. A escutá-lo. A perguntar o que ele está tentando dizer. O que ele está tentando proteger. O que ele está tentando transformar.
Talvez, no fundo, o desejo de desistir de tudo seja um desejo de recomeçar. De encontrar um modo de viver que não precise ser tão pesado. Que não precise ser tão performático. Que não precise ser tão “normal”. E que, para isso, seja preciso desistir de algumas coisas, mas não de tudo. Apenas daquilo que já não nos serve mais.
