Deserção

E talvez essa seja a questão mais radical que a psicanálise nos coloca: nem todo sofrimento é neurótico. Mas nem toda ausência de sofrimento é saúde.

3/19/20264 min read

Você já reparou? Há pessoas que atravessam a vida inteira sem jamais se perguntar pelo outro. Não por crueldade — mas por uma espécie de elisão silenciosa. O cuidado ao próximo simplesmente não comparece como questão. E o mais intrigante: essa ausência não parece produzir nenhum sofrimento visível.

Não estamos falando de psicopatas ou de casos extremos. Estamos falando de gente comum. Profissionais competentes, pais que cumprem deveres, cônjuges que mantêm a forma. Pessoas que nunca foram acusadas de maldade — porque a deserção do cuidado não se apresenta como ataque. Ela se apresenta como indiferença bem ajustada.

O que permite que alguém viva assim sem pagar o preço do remorso? O que sustenta a possibilidade de não cuidar — e não sofrer por isso?

A resposta psicanalítica não está na moral. Está na estrutura.

O cuidado ao outro não é instinto. É produção psíquica. Ele supõe que o outro exista como alteridade — não como extensão, não como função, não como espelho. Supõe que o sujeito tenha encontrado, em algum momento da constituição subjetiva, a experiência de ser afetado pela existência de um outro que não se reduz a ele.

Quando essa experiência não se constitui — ou quando foi elidida por mecanismos defensivos muito eficazes — o que resta não é necessariamente hostilidade. O que resta é uma espécie de vazio operacional: o outro não comparece como questão.

E aí está o ponto mais desconcertante: não sofrer pela ausência de cuidado pode ser sintoma de que o outro nunca chegou a ser inscrito como outro de fato. O que parece ausência de culpa pode ser, na verdade, ausência de registro. Não há remorso porque não há falta. Não há falta porque o outro nunca foi suficientemente outro.

Isso não significa que essas pessoas sejam vazias ou incapazes de relação. Significa que a relação que estabelecem com o mundo é mediada por uma lógica na qual o cuidado não opera como valor estruturante. Elas podem ser generosas — desde que a generosidade sirva a uma imagem de si. Podem ser atenciosas — desde que a atenção reforce uma posição. O que não fazem é cuidar como resposta ao que o outro demanda sem garantia de retorno.

A psicanálise nos ensina que o sofrimento neurótico é sinal de que algo do desejo está em jogo. O sujeito sofre porque quer — e porque o que quer esbarra no impossível, no recalcado, no que não se deixa satisfazer. Mas há uma modalidade de funcionamento psíquico na qual o sofrimento não comparece justamente porque o desejo foi neutralizado antes de se tornar questão. O que se instalou no lugar foi uma espécie de adequação sem resto.

E é isso que torna essas pessoas tão funcionais. Elas não travam. Não se paralisam diante do dilema ético. Não perdem noites pensando se falharam com alguém. A vida segue — porque nada nela pede pausa.

Lacan dizia que o desejo é desejo do Outro. Isso significa que para desejar, o sujeito precisa ter sido capturado pelo enigma do que o Outro quer dele. Mas e quando esse enigma nunca se instalou? Quando a criança não foi convocada a responder ao desejo de um Outro que a desejasse como sujeito — mas apenas como complemento, como extensão narcísica, como função?

O que se produz aí não é necessariamente patologia grave. O que se produz é um sujeito que aprendeu a responder a demandas — mas nunca precisou se haver com o desejo. E o cuidado, no sentido mais profundo, é uma resposta ao desejo do outro. Não ao que ele pede. Ao que ele é enquanto falta.

Por isso o cuidado autêntico incomoda. Ele exige que o sujeito saia da posição de controle e se deixe afetar pelo que não domina. Exige que o outro compareça como enigma — e não como variável gerenciável.

Quem deserta do cuidado não deserta por preguiça ou egoísmo moral. Deserta porque a estrutura que sustenta o cuidado — a capacidade de ser atravessado pelo que o outro é — não se constituiu. E como não se constituiu, não falta. E como não falta, não produz sofrimento.

É por isso que tentar convencer alguém assim de que deveria cuidar mais é inútil. Você está apelando para uma instância que não existe. Está pedindo culpa a quem não tem registro da falta. Está convocando um outro que nunca foi inscrito como tal.

A clínica psicanalítica trabalha exatamente aí: na possibilidade de que o outro compareça onde antes havia apenas funcionalidade. Mas isso só acontece quando o sujeito tropeça. Quando algo na vida não funciona mais. Quando a adequação sem resto se revela insuficiente — não porque alguém disse, mas porque algo no real forçou uma parada.

Enquanto a vida funciona, a deserção do cuidado segue invisível. Ela não dói. Não pesa. Não convoca.

E talvez essa seja a questão mais radical que a psicanálise nos coloca: nem todo sofrimento é neurótico. Mas nem toda ausência de sofrimento é saúde.