Dependência

A dependência química é, no fundo, uma forma de sofrer. E todo sofrimento merece ser ouvido, não julgado. Quem depende de uma substância não precisa de sermões...

5/29/20263 min read

A dependência química é, antes de tudo, uma história de sofrimento que se esconde atrás de uma substância. Não se trata de fraqueza de caráter, de falta de força de vontade ou de escolha deliberada. Quem depende de álcool, drogas ou qualquer outra substância não está simplesmente buscando prazer: está tentando escapar de uma dor que parece insuportável, de um vazio que não consegue nomear, de uma angústia que o atravessa sem dar trégua. A substância se torna uma espécie de amigo traiçoeiro, aquele que promete alívio imediato, mas cobra um preço cada vez mais alto.

Para Lacan, o sujeito é constitutivamente dividido, atravessado por um desejo que nunca encontra plena satisfação. Não existe cura para o desejo, porque ele é o motor mesmo da existência humana. A dependência química surge, muitas vezes, como uma tentativa desesperada de preencher esse vazio estrutural, de encontrar na substância uma resposta a uma pergunta que o sujeito não consegue formular. O álcool ou a droga funcionam como um objeto que promete completude, que simula, por algumas horas, a sensação de estar inteiro. Mas essa completude é ilusória. Logo que o efeito passa, o vazio retorna, agora mais intenso, mais gritante. O sujeito fica preso em um ciclo vicioso: quanto mais busca o objeto para preencher a falta, mais a falta se evidencia. A dependência é, nesse sentido, uma forma de gozo que se torna insuportável, um gozo que não deixa o sujeito em paz, mas do qual também não consegue se desprender.

A questão não é, portanto, apenas biológica ou moral. É existencial. O dependente químico não está simplesmente viciado em uma substância: está viciado em uma forma de lidar com o impossível de ser humano. A dor de existir, a angústia de não saber quem se é, o medo do futuro, o peso do passado, tudo isso encontra na substância uma espécie de anestesia simbólica. Mas anestesiar não é curar. É adiar o encontro com algo que, cedo ou tarde, precisará ser enfrentado.

Aqui entra Kierkegaard com sua concepção profunda da angústia. Para ele, a angústia não é medo de algo específico, mas medo de nada, uma vertigem diante da liberdade. O sujeito que se depara com a possibilidade infinita de escolher quem quer ser sente tontura, como quem olha para o abismo e sente a tentação de se lançar nele. A dependência química pode ser compreendida como uma fuga dessa vertigem. Em vez de enfrentar a liberdade angustiante de construir uma vida, o dependente entrega-se a uma rotina cristalizada, onde a única escolha que importa é a próxima dose. A substância tira, paradoxalmente, a liberdade, mas oferece em troca uma falsa segurança. É como se o sujeito preferisse a certeza da escravidão à incerteza da liberdade.

Mas Kierkegaard também nos lembra que a angústia pode ser um professor. Quando enfrentada, ela revela ao sujeito sua própria capacidade de escolha, sua responsabilidade existencial. A recuperação da dependência química não é, então, apenas deixar de usar. É reencontrar a coragem de existir sem a substância, de suportar a angústia sem anestesiá-la, de construir um sentido para a vida a partir das próprias escolhas. Esse processo é doloroso, porque exige que o sujeito renuncie a um gozo que, embora destrutivo, era familiar. Exige que ele aprenda a suportar a falta, a incompletude, a divisão que o constitui.

A clínica psicanalítica, nesse sentido, não promete cura rápida nem fórmulas mágicas. Oferece, isso sim, um espaço onde o sujeito pode começar a falar, a nomear o que antes só conseguia silenciar com a substância. Através da palavra, o impossível de ser dito vai aos poucos encontrando voz. E é nesse movimento, lento e muitas vezes tortuoso, que a possibilidade de uma vida diferente pode emergir. Não uma vida sem falta, porque isso seria ilusão, mas uma vida onde a falta deixa de ser um abismo a ser anestesiado e se torna um lugar de onde se pode falar, de onde se pode construir.

A dependência química é, no fundo, uma forma de sofrer. E todo sofrimento merece ser ouvido, não julgado. Quem depende de uma substância não precisa de sermões: precisa de alguém que o ajude a suportar a angústia de ser quem é, sem fugas, sem anestesias, com a coragem de quem sabe que existir é, sempre, um risco.

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