Culpa

Mas sofrer não significa que alguém é culpado pelo seu sofrimento.

4/26/20263 min read

Há filmes que não contam histórias — eles abrem feridas. Anatomia de uma Queda, de Justine Triet, é um deles. No centro da trama, uma mulher é julgada pela morte do marido. Caiu? Foi empurrado? O filme não responde. Mas o que me interessa aqui não é o veredicto. É o psicanalista.

Porque, em certo momento, o terapeuta de Samuel — o homem morto — sobe à tribuna. E o que ele diz é perturbador: Sandra, a esposa, era "castradora". Dominava. Machucava. E, ao fazer isso, ele constrói uma ponte silenciosa entre o sofrimento do marido e a culpa da mulher.

Só que tem um problema: ele nunca ouviu Sandra.

Imagine contar a história do seu casamento para um terapeuta. Você fala do que te machuca, do que te falta, do que a outra pessoa não faz. O terapeuta ouve. Anota. Interpreta. Mas nunca senta do outro lado da mesa para ouvir a versão do seu parceiro.

É isso que o filme expõe com crueldade. O psicanalista de Samuel trabalhou apenas com a narrativa dele. E quando essa narrativa foi parar num tribunal, virou evidência. Virou verdade. Virou culpa.

Aqui entra algo que Lacan nos ensina: a verdade não é inteira. Ela é fragmentada, dividida, sempre contada por alguém que fala de um lugar específico — de um desejo, de uma dor, de uma versão parcial do mundo. Não existe "a verdade do casal". Existe a verdade dele, a verdade dela, e o vazio entre as duas que nunca será preenchido.

Quando o psicanalista diz que Sandra era "castradora", ele não está descrevendo um fato. Ele está repetindo o discurso de um homem que sofria, que se sentia pequeno, que via na esposa — mais bem-sucedida, mais produtiva, mais livre — uma ameaça constante à própria existência. O terapeuta ouviu esse sofrimento. Mas não ouviu o outro lado. E, sem o outro lado, não há análise. Há apenas acusação disfarçada de diagnóstico.

Samuel sofria. Isso o filme não nega. Ele cuidava do filho cego, dava aulas, via a carreira da mulher decolar enquanto a dele estagnava. Tomava antidepressivos. Já havia tentado se matar com aspirina. O sofrimento era real, denso, legítimo.

Mas sofrer não significa que alguém é culpado pelo seu sofrimento. E é aí que o psicanalista erra — ou, pior, onde o sistema judicial erra ao usá-lo. Ele transforma uma narrativa terapêutica, que por natureza é subjetiva e parcial, em uma espécie de prova forense. Como se o consultório fosse um laboratório de verdades objetivas sobre relacionamentos.

Sandra, no filme, responde com uma frase simples e devastadora: se a minha terapeuta estivesse aqui, ela também teria coisas a dizer sobre o Samuel.

E tem. Porque toda terapia individual, quando aplicada a um casal, é cega de um olho. Ela vê a metade que está na sala. A outra metade fica no escuro.

O título do filme é genial: Anatomia de uma Queda. Parece prometer uma dissecação, uma explicação, um "porquê" claro. Mas o que o filme entrega é o oposto: a queda de Samuel é apenas uma das quedas. Há também a queda do casamento, da confiança, da ideia de que conseguimos entender o outro.

O psicanalista tenta dar uma anatomia do sofrimento de Samuel. Mas, ao ignorar Sandra, ele produz uma anatomia falha — uma autópsia emocional feita com metade dos órgãos.

O que fica, no final, é uma pergunta incômoda: quando ouvimos alguém sofrer, corremos o risco de transformar o outro em vilão? O terapeuta de Samuel não quis culpar Sandra. Mas, ao ouvir apenas um lado, não conseguiu fazer outra coisa.

E talvez essa seja a lição mais dolorosa do filme: não existe justiça onde só há uma versão. Não existe verdade onde só há uma voz. E não existe análise onde só há acusação.