Correr

Muitos analisando relatam que, quando correm, coisas que estavam embaralhadas na cabeça se organizam...

7/18/20263 min read

Há algo na corrida que vai além do exercício físico. Algo que tem a ver com ritmo, com respiração, com o corpo se movendo no espaço. Algo que, em certos momentos, pode funcionar como uma espécie de terapia silenciosa. Não uma terapia que substitui a análise, mas uma que a complementa. Que oferece ao sujeito um outro lugar para se encontrar consigo mesmo.

Na psicanálise, trabalhamos com a fala. Com as palavras que falham, que escorregam, que insistem. Com os significantes que se repetem. Com os sonhos, os lapsos, os sintomas. O corpo aparece, claro, mas principalmente como lugar onde o inconsciente se inscreve. Como sintoma. Como gozo. Como marca.

A corrida traz o corpo de outra maneira. Não como sintoma a ser decifrado, mas como presença a ser habitada. O sujeito que corre sente a respiração, o cansaço, a dor muscular, o suor. Sente os limites. Sente o que o corpo aguenta e o que não aguenta. Sente que há algo que escapa ao controle da vontade consciente. Algo que tem seu próprio tempo, seu próprio ritmo.

Isso pode ser muito revelador para quem está em análise. Porque a análise lida com a divisão do sujeito. Com a barra que o atravessa. Com a falta que o constitui. A corrida, de certa forma, encarna essa divisão. Mostra que há uma parte do sujeito que não obedece apenas à mente. Que tem suas leis próprias. Que cansa, que dói, que resiste, que se adapta.

Muitos pacientes relatam que, quando correm, coisas que estavam embaralhadas na cabeça se organizam. Ou, ao contrário, coisas que estavam muito organizadas se desorganizam. A monotonia do movimento, o som dos passos, a respiração ritmada, criam um espaço mental diferente. Um espaço onde associações podem surgir de outro jeito. Onde lembranças podem voltar com outro tom. Onde perguntas podem se formular sem a pressão do divã.

Isso não significa que a corrida substitua a análise. Significa que ela pode ser um complemento. Um lugar onde o sujeito experimenta, no corpo, o que na análise experimenta na linguagem. Onde ele sente, na carne, o que nas sessões tenta dizer. Onde ele lida, concretamente, com a pulsão de vida e com a pulsão de morte: o impulso de parar, de desistir, de se machucar, e o impulso de continuar, de superar, de se surpreender.

Há também uma dimensão de gozo na corrida. O prazer paradoxal do cansaço, da dor controlada, da superação. O gozo de sentir o corpo no limite, de provar a si mesmo que é capaz, de transformar a angústia em fôlego, em suor, em movimento. Esse gozo não é necessariamente patológico. Pode ser uma maneira de simbolizar a pulsão, de dar a ela uma forma, um ritmo, uma direção.

Claro que, como tudo, a corrida também pode virar sintoma. Pode virar obsessão, fuga, modo de não parar para pensar, para sentir, para falar. Pode ser usada como anestesia. Como maneira de calar a pergunta em vez de enfrentá la. Aí, ela deixa de ser complemento e vira obstáculo. O analista precisa estar atento a isso. A pergunta não é “correr é bom ou ruim?”, mas “que função a corrida está cumprindo para este sujeito?”.

Quando funciona como complemento, a corrida pode ajudar o paciente a trazer para a análise experiências concretas. “Naquela corrida, eu lembrei de algo que não pensava há anos.” “Quando eu estava no limite, veio uma raiva que eu não sabia que tinha.” “Depois de correr, eu consegui chorar de um jeito que não conseguia aqui.” Esses relatos são preciosos. Mostram que o corpo e a fala estão conectados. Que o que acontece na rua pode ecoar no divã, e vice versa.

A psicanálise não propõe receitas. Não diz “corra três vezes por semana e você vai se curar”. Ela escuta o que cada sujeito faz com a corrida. Como ela aparece nos sonhos, nas associações, nas repetições. Como ela modula a transferência. Como ela afeta o humor, o sono, a relação com o próprio corpo.

Correr, então, pode ser uma maneira de o sujeito se encontrar consigo mesmo fora da linguagem. De experimentar, no movimento, algo que as palavras ainda não conseguem dizer. De sentir, no corpo, que a vida tem um ritmo que não depende apenas da vontade. E que, talvez, aprender a escutar esse ritmo seja parte do autoconhecimento. Não o autoconhecimento da autoajuda, que promete controle total. Mas o autoconhecimento da psicanálise, que reconhece que sempre há algo que escapa. E que, às vezes, é justamente nesse escape que a vida se revela.

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