Chore
O choro, como tudo na psicanálise, não é inocente. Ele carrega o que o sujeito não consegue dizer e, às vezes, o que ele não quer dizer.
9/28/20264 min read
Tem coisas que só o choro consegue dizer. Não porque as palavras sejam insuficientes em si, mas porque há um lugar no sujeito que a linguagem ainda não alcançou. Um lugar onde a dor não tem nome, onde a lembrança não tem rosto, onde a angústia não encontra um significante que a segure. Aí, o choro vem. Não como resposta pronta, mas como uma espécie de fala que escapa pela pele, pelos olhos, pela garganta apertada. Uma fala que o corpo assume quando a boca ainda não sabe o que articular.
Na psicanálise lacaniana, a fala não é apenas o que se diz. É também o que se manifesta onde a palavra falha. O choro, nesse sentido, pode ser uma forma de fala plena. Aquela em que algo do sujeito aparece, mesmo sem que ele perceba. Quando alguém chora no divã, muitas vezes não está apenas triste. Está sendo atravessado por algo que voltou. Algo que foi recalcado, que foi mantido fora da consciência porque seria insuportável saber. O choro é o retorno do recalcado se fazendo corpo. É o inconsciente que não consegue mais ficar silencioso e escolhe outra via.
Freud já notava que os sintomas, os sonhos, os lapsos, as repetições são formas de o inconsciente se expressar. Lacan acrescentou que o gozo também fala. E o choro pode ser uma forma de gozo. Não o prazer fácil, mas aquela satisfação paradoxal que mantém o sujeito preso ao que o faz sofrer. Chorar pode ser um alívio, sim, mas também pode ser uma maneira de permanecer na dor. De não deixá la ir. De sustentar, por um instante, uma ligação com algo que, de outro modo, seria puro vazio.
Na clínica, o analista aprende a não ter pressa com o choro. Não é momento para interpretar de imediato, nem para consolar com frases prontas. É momento para escutar o que há naquele choro. Será que é luto por algo que se foi? Será que é raiva que não encontrou outro lugar? Será que é o reconhecimento de uma falta antiga, de uma ferida que nunca foi nomeada? Será que é o gozo de finalmente sentir, mesmo que seja dor, depois de tanto tempo anestesiado?
Muitas pessoas chegam à análise dizendo que não conseguem chorar. Que secaram. Que algo aconteceu e, de repente, as lágrimas sumiram. Ou que nunca souberam chorar direito, que aprenderam cedo que chorar era vergonha, fraqueza, infantilismo. Que homem não chora, que gente grande segura as pontas, que não se pode desabar na frente dos outros. Quando o choro é proibido, ele não some. Vai para outro lugar. Vira sintoma. Vira angústia inexplicável, vira insônia, vira explosão de raiva, vira corpo adoecido. O que não pode ser chorado precisa ser de algum modo expresso. E, se a lágrima está vedada, o sujeito encontra outras formas de dizer que algo está despedaçado por dentro.
Há também o choro que vem depois de muito tempo. Aquele que demora anos para chegar. Quando finalmente vem, é quase um choque. A pessoa não entende de onde saiu tanto líquido, tanto som, tanta convulsão. É como se o corpo dissesse: você me deve isso. É a conta sendo cobrada. É o recalcado que encontrou uma fresta e invadiu. E, estranho como possa parecer, depois desse choro há uma leveza diferente. Não a leveza da cura, mas a leveza de quem finalmente deixou algo sair que estava preso há demasiado tempo.
O choro tem uma função social importante. Ele pede ao outro que veja, que escute, que esteja presente. É uma forma de demanda. De dizer, sem palavras: eu preciso de você agora. Não para resolver, não para consertar, apenas para não ficar sozinho com isso. Mas também pode ser uma forma de gozar do outro. De fazê-lo se sentir impotente, culpado, responsável. De colocá-lo no lugar de quem tem que aguentar a nossa dor. O choro, como tudo na psicanálise, não é inocente. Ele carrega o que o sujeito não consegue dizer e, às vezes, o que ele não quer dizer.
Crianças choram com uma frequência e uma intensidade que os adultos invejam e temem. Elas ainda não aprenderam a domesticar a dor em palavras aceitáveis. Elas sentem e deixam sentir. A lágrima vem quando vem, sem hora marcada, sem contexto apropriado. É o corpo falando antes que a censura aprenda a calá-lo. À medida que crescemos, vamos aprendendo a segurar. A segurar para não incomodar, para não parecer fraco, para não perder o controle. E, com isso, vamos perdendo uma das formas mais antigas e verdadeiras de nos comunicarmos.
Não estou dizendo que chorar resolve. A psicanálise não promete isso. Uma boa crise de choro não apaga a história, não preenche a falta, não devolve o que se perdeu. Mas permite que algo se mova. Que algo que estava congelado volte a circular. Que o sujeito entre em contato, ainda que por um instante, com uma verdade que ele conseguia apenas evitar.
Chorar é, em última instância, uma forma de reconhecer que somos divididos. Que há algo em nós que não obedece à razão, à vontade, à imagem que gostaríamos de ter de nós mesmos. Que há uma parte que sofre, que sente, que lembra, que padece, e que não se deixa reduzir a uma explicação elegante. Quando choramos, estamos por um momento entregues. E essa entrega, se escutada, pode ser o início de algo. Não de uma solução, mas de uma possibilidade. De que a dor possa, finalmente, ter um nome. Ou, se não tiver, que possa pelo menos ser acompanhada.
