Burnout
É preciso imaginar Sísifo feliz". Não porque a pedra chegue ao cume, mas porque, em algum momento, ele percebe que a pedra não é tudo.
4/12/20264 min read


O escritório vazio às sete da noite já não surpreende ninguém. As luzes acesas nos andares superiores dos prédios comerciais, que antes sinalizavam dedicação excepcional, agora são apenas parte da paisagem urbana — tão previsíveis quanto os engarrafamentos da manhã. O que antes era exceção tornou-se regra: a jornada que não termina, o e-mail respondido à meia-noite, a reunião agendada para o domingo à tarde. Não se trata mais de cumplicidade com o trabalho, mas de uma rendição silenciosa a ele. O esgotamento não é um acidente de percurso; é o percurso em si.
Há algo de estranho nessa normalização do cansaço. Não é apenas o corpo que se esgota, mas o sentido que se desmancha. Quando a produtividade se torna a única moeda de troca reconhecida, o sujeito deixa de perguntar para quê e passa a repetir mais. A fadiga já não é um sinal de alerta, mas um troféu: quem dorme menos, quem abre mão do almoço, quem cancela as férias — esses são os heróis de nosso tempo. Mas heróis de quê? De uma guerra sem inimigo declarado, onde o campo de batalha é a própria subjetividade.
O que esse fenômeno revela — e que o discurso gerencial insiste em não ver — é que o burnout não é um problema individual, mas um sintoma coletivo. Não se trata de falta de resiliência ou de técnicas inadequadas de time management, como querem os manuais de autoajuda corporativa. O esgotamento é a resposta lógica a um sistema que exige do sujeito algo impossível: que ele seja, ao mesmo tempo, máquina e humano. Máquina na eficiência, humano na culpa por não dar conta. A armadilha está justamente aí: quanto mais se trabalha para provar o próprio valor, mais esse valor parece escorrer entre os dedos.
A psicanálise lacaniana oferece uma chave para entender esse impasse. Lacan falava do sujeito barrado — aquele que, por mais que se esforce, nunca coincide consigo mesmo. Há sempre um resto, algo que escapa à captura do discurso. No caso do burnout, esse discurso é o do capitalismo tardio, que promete completude pela via do desempenho. "Se você trabalha bastante, será feliz", diz a propaganda. Mas a felicidade, como bem sabia Freud, não é um objeto a ser conquistado; é um efeito colateral de algo que não tem nome.
O que o esgotamento põe em cena é justamente a falência dessa promessa. O sujeito descobre, tarde demais, que não há prêmio no fim da corrida — porque a corrida não tem fim. O objeto a lacaniano, essa coisa inalcançável que move o desejo, aqui se revela como a própria atividade laboriosa: trabalha-se não para obter algo, mas para manter a ilusão de que, em algum ponto, o sacrifício será recompensado. Quando essa ilusão ruí, resta o vazio. E é nesse vazio que o corpo colapsa, não por fraqueza, mas por ter sido levado ao limite de sua capacidade de mentir para si mesmo.
Mas há algo ainda mais profundo nesse fenômeno, algo que toca na própria constituição do desejo. Freud, em Mal-Estar na Civilização, já advertia: a cultura exige renúncias pulsionais, e essas renúncias geram sofrimento. O problema não é o trabalho em si, mas o lugar que ele ocupa na economia psíquica contemporânea. Quando o labor deixa de ser um meio para se tornar o único fim, ele usurpa o espaço que deveria ser ocupado por outras dimensões da existência — o ócio, o jogo, o amor, a criação sem propósito.
O estoicismo, surpreendentemente, oferece uma pista para pensar essa questão. Marco Aurélio escrevia em seu Diário que "o homem vale tanto quanto aquilo a que dedica sua atenção". Se aplicássemos essa máxima ao nosso tempo, teríamos uma geração que vale pelo número de horas faturáveis, pela quantidade de deliverables produzidos, pela capacidade de estar sempre on. Mas atenção, aqui, não é sinônimo de presença. Pode-se estar atento ao relatório trimestral e, ao mesmo tempo, completamente ausente de si mesmo.
O que o burnout revela, em sua crudeza, é que o sujeito moderno confunde fazer com ser. E quando o fazer se esvazia de sentido, o ser entra em colapso. Não é à toa que, nas clínicas psicanalíticas, cada vez mais se ouve: "Não sei mais quem sou fora do trabalho". Essa frase não é uma queixa, é um diagnóstico. Ela indica que a identidade foi sequestrada pela função, que o desejo foi substituído pela demanda — e que, sem essa demanda, não resta nem mesmo a sombra de um eu.
Talvez a pergunta que devamos fazer não seja "como evitar o burnout?", mas "o que esse esgotamento está tentando nos dizer?". Ele aponta para um mal-estar mais amplo, que não se resolve com férias prolongadas ou sessões de mindfulness. O burnout é o sintoma de uma civilização que perdeu a capacidade de desejar além da produtividade, que trocou a pergunta "o que te move?" pela obrigação de estar sempre em movimento.
E se, em vez de buscar saídas individuais, olhássemos para o esgotamento como um convite à interrogação coletiva? O que aconteceria se, diante da fadiga, perguntássemos não "como posso render mais?", mas "o que, afinal, estou tentando preencher com tanto fazer?". Essa pergunta não tem resposta pronta — e é justamente por isso que ela importa. Porque só quando paramos de correr é que podemos ouvir o eco de um desejo que não é o do Outro, mas o nosso próprio, mesmo que barrado, mesmo que inconfessável.
O esgotamento, nesse sentido, pode ser uma brecha. Não a brecha que leva à cura (essa é outra promessa enganosa), mas a que abre para a possibilidade de um questionamento radical: o que resta quando tudo o que nos definia — os títulos, os cargos, as metas — se desvanece? Talvez só então possamos vislumbrar que, como escreveu Camus, "a luta pelo topo é suficiente para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz". Não porque a pedra chegue ao cume, mas porque, em algum momento, ele percebe que a pedra não é tudo.
