Basta!

Este cansaço não é, necessariamente, o fim da linha. Ele pode ser o ponto de virada.

5/2/20262 min read

Pode ser um sussurro ao final de um dia exaustivo ou um grito mudo diante do noticiário: “Cansei de tudo”. Esta não é uma fadiga comum, daquelas que uma boa noite de sono resolve. É um cansaço da alma, um esgotamento que corrói o próprio motor do desejo e lança uma névoa cinzenta sobre o que antes era vibrante. Mas o que se esconde por trás dessa exaustão que parece definir o nosso tempo?

Essa análise ressoa com profundidade no campo da psicanálise. Freud, em seu texto seminal “O Mal-Estar na Civilização”, já nos advertia sobre o preço que pagamos para viver em sociedade. A civilização nos impõe a renúncia de parte de nossa satisfação pulsional em troca de segurança. Há um desconforto inerente, um mal-estar que é estrutural à condição humana. O que testemunhamos hoje é a intensificação desse mal-estar por um mercado que promete a felicidade completa e instantânea, criando um paradoxo cruel: na busca frenética pelo gozo absoluto, encontramos apenas o vazio e a frustração.

É aqui que a escuta psicanalítica, especialmente a de orientação lacaniana, se torna crucial. O que é este “tudo” do qual nos cansamos? Para Lacan, o sujeito é fundamentalmente marcado por uma falta. Somos seres de desejo, e o desejo se move justamente nesse vácuo, nessa busca incessante por um objeto (a) que, por definição, é sempre perdido e inalcançável. A lógica capitalista explora essa estrutura ao nos bombardear com uma infinidade de objetos de consumo que prometem, falsamente, preencher essa falta constitutiva. O cansaço advém não dos objetos em si, mas da lógica perversa que nos compele a saltar de um para o outro, em uma corrida sem fim que apenas evidencia o vazio que tentamos, em vão, suturar. Cansamos da própria estrutura do desejo capturada pela engrenagem do consumo.

O que fazer, então, quando o “cansei de tudo” se instala? Talvez, o primeiro passo seja resistir à tentação de uma solução rápida. Em uma cultura que patologiza qualquer desvio da norma produtiva, permitir-se habitar o cansaço pode ser um potente ato político e subjetivo. É neste ponto de suspensão, neste “basta”, que a questão sobre o próprio desejo pode emergir de forma mais autêntica.

Este cansaço não é, necessariamente, o fim da linha. Ele pode ser o ponto de virada. É o momento em que a engrenagem para e nos permite questionar: para quem estou correndo? A serviço de que ideal de felicidade estou me esgotando? Ao descolar-se dos significantes-mestres da sociedade do desempenho — sucesso, produtividade, positividade — , o sujeito pode, talvez, encontrar um espaço para reinventar sua relação com o desejo e com a vida.

Acolher o “cansei de tudo” não como uma falha pessoal, mas como um sintoma que nos diz algo precioso sobre nós e nosso mundo, é o convite. É no deserto da exaustão que, por vezes, a fonte de um novo começo pode brotar.