Autismo
O desafio, então, não é "integrar" o autista à normalidade, nem romantizar sua diferença como uma forma de pureza.
4/19/20264 min read


O menino de oito anos senta-se no canto da sala de aula, as mãos tapando os ouvidos. Não é o barulho dos colegas que o incomoda — ou não só isso. É a luz fluorescente piscando imperceptível para os outros, é o cheiro do almoço que parece invadir cada poro de sua pele, é a textura da etiqueta da camisa que raspa como lixa. Enquanto as crianças ao redor riem de uma piada que não entende, ele repete para si mesmo, em voz baixa, a mesma frase: "O ônibus amarelo passa às três e vinte, o ônibus amarelo passa às três e vinte...". Para os professores, é um comportamento a ser corrigido. Para ele, é a única âncora em um mundo que parece feito de códigos indecifráveis.
A cena se repete, com variações, em consultórios, parques e jantares de família. O autismo — ou, mais precisamente, os transtornos do espectro autista — aparece hoje como um dos grandes enigmas da contemporaneidade. Não pela falta de informações, mas pelo excesso de interpretações. De um lado, discursos que o reduzem a uma "doença a ser curada"; de outro, narrativas que o idealizam como uma "superpotência" a ser celebrada. Em ambos os casos, algo se perde: a experiência singular daqueles para quem o mundo não é um lugar óbvio.
O que esses discursos revelam, antes de tudo, é o desconforto do Outro — com maiúscula, no sentido lacaniano — diante do que não pode ser facilmente assimilado. A criança autista, com seus gestos repetitivos e sua linguagem literal, expõe uma verdade inconveniente: a comunicação humana não é um sistema fechado de sinais, mas um campo minado de mal-entendidos. Quando ela não responde ao sorriso da mãe ou não compartilha a atenção para o brinquedo novo, não está apenas "falhando" em uma etapa do desenvolvimento. Está mostrando que o laço social, esse tecido que supomos natural, é na verdade uma construção frágil, dependente de uma série de ficções compartilhadas.
A insistência em "normalizar" o autista — seja através de terapias comportamentais que visam extirpar seus "sintomas", seja através de campanhas que pregam a "inclusão" como mera tolerância à diferença — esconde um movimento mais profundo: a recusa em reconhecer que sua existência questiona a própria noção de normalidade. Como escrevia Lacan, "o inconsciente é a política" — e o autismo, nesse sentido, é profundamente político. Ele desestabiliza a ilusão de que todos habitamos o mesmo mundo, de que a realidade é uma só.
Aqui, a teoria psicanalítica oferece uma chave, não para "explicar" o autismo, mas para escutá-lo. Lacan, em seu seminário sobre as psicoses, fala do foraclusão do Nome-do-Pai como um mecanismo que impede a entrada do sujeito na ordem simbólica. No autismo, porém, não se trata exatamente de uma foraclusão, mas de uma relação singular com a linguagem e com o corpo. A criança autista muitas vezes parece prescindir do Outro como mediador de seu gozo — ela encontra satisfação em circuitos repetitivos que não demandam interpretação. O balançar do corpo, o alinhar de objetos, a recitação de horários não são "comportamentos problemáticos", mas tentativas de criar uma borda onde o mundo não invade demais.
Françoise Dolto, ao trabalhar com crianças psicóticas, observava que o corpo, para elas, não é um dado, mas um enigma a ser decifrado. No autismo, essa questão se radicaliza: o corpo muitas vezes é vivido como um território estrangeiro, cujas sensações chegam sem filtro. O que chamamos de "hipersensibilidade" — à luz, ao som, ao toque — pode ser lido como uma dificuldade em estabelecer a barreira protetora que, para a maioria, é constituída pelo recalque originário. Sem essa barreira, o real — no sentido lacaniano, aquilo que não pode ser simbolizado — irrompe com força demais.
Isso não significa, porém, que o autista esteja condenado a um isolamento sem saída. Winnicott, com sua noção de espaço transicional, nos lembra que a capacidade de brincar — de habitar um território entre o interno e o externo — é condição para a saúde psíquica. Muitas crianças autistas desenvolvem seus próprios objetos transicionais: um pedaço de pano, um brinquedo giratório, uma sequência de números. Esses objetos não são "muletas", mas pontes precárias entre seu mundo e o mundo dos outros.
O desafio, então, não é "integrar" o autista à normalidade, nem romantizar sua diferença como uma forma de pureza. É reconhecer que sua existência coloca uma questão radical: o que significa, afinal, ser humano em um mundo onde o laço social é cada vez mais mediado por protocolos e menos por encontros? Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, aponta como a hiperestimulação e a transparência forçada de nossa época produzem sujeitos esgotados, incapazes de criar zonas de sombra onde o desejo possa surgir. O autista, com sua recusa a participar desse jogo, talvez seja um sintoma necessário — um espelho que devolve à sociedade a imagem de sua própria fadiga.
E se, em vez de perguntar como fazer o autista se adaptar, nos perguntássemos o que seu mal-estar revela sobre o mundo que construímos? E se sua dificuldade em mentir, em fingir interesse, em participar de rituais sociais vazios fosse não um déficit, mas uma forma de resistência? Uma recusa a entrar no jogo do como se, que sustenta nossas instituições?
No final, talvez a pergunta mais urgente não seja "o que é o autismo?", mas "o que o autismo faz com nós?". Ele nos confronta com a ideia de que a comunicação nunca é total, de que o outro sempre escapa, de que a linguagem — essa ferramenta que supomos dominar — é na verdade um oceano onde todos, autistas ou não, nadamos sem fundo. A criança que repete "o ônibus amarelo passa às três e vinte" não está apenas se acalmando. Está nos lembrando que, para todos, a realidade é uma ficção necessária — e que algumas pessoas, mais do que outras, sabem quão frágil ela é.
