Assexualidade
Talvez a assexualidade seja, para alguns, uma forma de resistência a uma cultura que transforma tudo em objeto de consumo, inclusive o outro.
9/12/20264 min read


O que significa não sentir atração sexual? Não no sentido médico, nem no sentido da identidade como ela se afirma politicamente, mas no sentido mais incômodo da clínica. O que acontece com um corpo que não se inscreve na corrente do desejo como a maioria espera que ele se inscreva? O que se recusa ali? E o que se sustenta?
A assexualidade, enquanto identidade, tem ganhado visibilidade nos últimos anos. Pessoas que não experimentam atração sexual por outros, ou que a experimentam de um modo tão raro, tão específico, que a categoria dominante não consegue abrigá-las. Elas dizem: não estamos doentes, não estamos reprimidos, não precisamos ser curados. Apenas não sentimos isso. E essa afirmação é política. É uma recusa de ser patologizada por uma cultura que transformou o desejo sexual em norma quase absoluta.
A psicanálise precisa ouvir isso com cuidado. Porque, se há uma lição que Lacan nos ensinou, é que não há norma sexual universal. O que uma cultura chama de normalidade é, muitas vezes, uma estatística convertida em lei. E a clínica não pode servir a essa conversão. O analista não está lá para dizer o que o sujeito deveria desejar. Está lá para escutar o que ele deseja de fato, como seu desejo se organiza, o que ele diz e o que ele não consegue dizer.
Ainda assim, a pergunta permanece. Por que na psicanálise o sexual não é apenas o ato, a atração ou a orientação. O sexual é uma dimensão estrutural do sujeito. Freud mostrou que a sexualidade infantil é polimorfa, que o desejo se constrói por caminhos tortuosos, que o recalque organiza o que será admissível. Lacan acrescentou que o gozo não é simplesmente prazer, mas também posse. É uma satisfação paradoxal que mantém o sujeito preso ao que o faz sofrer. E que o desejo é desejo do Outro. Não o que o outro tem, mas o que o outro deseja de nós. O que nos coloca no lugar de objeto, de causa de desejo.
Quando alguém diz que não sente atração sexual, a psicanálise precisa perguntar: o que é esse não sentir? É uma posição subjetiva clara, como a pessoa afirma? É uma recusa radical ao gozo como ele se organiza na cultura atual? É uma proteção contra uma ferida? É um modo de não se inscrever no jogo do Outro? Ou é, de fato, uma constituição onde a pulsão sexual não se ligou ao objeto de um modo predominante?
A resposta pode ser todas essas coisas, em sujeitos diferentes. E é por isso que a psicanálise não pode ter uma teoria única sobre a assexualidade. Ela pode ter uma escuta. Uma escuta que não parte do pressuposto de que todo mundo deveria desejar sexualmente. Que não transforma a ausência de atração em sintoma automaticamente. Que não confunde identidade com patologia.
Mas também uma escuta que não fecha os olhos para o sofrimento. Porque, muitas vezes, quem se identifica como assexual sofre. Não por causa da ausência de desejo em si, mas pela pressão do mundo. Pela pergunta insistente: você ainda não encontrou a pessoa certa? Pela medicalização. Pela suspeita de que há algo a ser corrigido. Pela dificuldade de se relacionar numa cultura onde o sexo funciona como moeda de troca, como idioma, como prova de amor.
Nesse sentido, a assexualidade expõe algo importante sobre a nossa época. Ela mostra que vivemos numa cultura da hipersexualização, onde o gozo é convocado o tempo todo, mas raramente questionado. Onde se deve desejar, performar, consumir, exibir. Onde a ausência de desejo é quase mais inquietante que o excesso. Porque ela recusa o jogo. Ela diz: eu não quero isso. E essa recusa é, por si só, uma forma de subversão.
Para a psicanálise, o que importa não é se o sujeito é ou não assexual. O que importa é como ele habita essa posição. Se ela é uma afirmação, uma fuga, uma proteção, uma identidade, uma construção, uma descoberta. O que ela custa. O que ela permite. O que ela esconde. O que ela revela.
O corpo do assexual não é um corpo vazio. É um corpo onde a pulsão se organizou de outro modo. Talvez o gozo esteja mais ligado ao saber, à amizade, à sensibilidade estética, à solidão, a outras formas de ligação. Talvez o sujeito tenha encontrado uma maneira de não se entregar ao que Lacan chamava de gozo fálico, aquele gozo que se mede, se compara, se exige. Talvez a assexualidade seja, para alguns, uma forma de resistência a uma cultura que transforma tudo em objeto de consumo, inclusive o outro.
O que fica claro é que não cabe ao analista dizer o que o sujeito deveria ser. Cabe a ele escutar o que o sujeito é. E, se necessário, ajudá-lo a desatar os nós que o fazem sofrer. Não os nós da assexualidade em si, mas os nós da culpa, da vergonha, da exclusão, da dúvida, da pressão. Os nós de uma história onde o Outro nunca aceitou que o sujeito pudesse ser de outro modo.
No fim, a assexualidade nos lembra algo que a psicanálise deveria nunca esquecer: o desejo não tem roteiro. Ele se inventa em cada história. E a clínica que não consegue escutar uma invenção diferente da sua própria norma já deixou de ser clínica. Já virou polícia do gozo.
