Alcoolismo
“eu trabalho melhor assim”, “eu fico mais criativo”, “eu preciso para dormir”, “eu preciso para socializar”, “eu paro quando eu quiser”, “eu bebo como todo mundo”, “o problema não é a bebida, é o estresse”, “o problema é a minha família”, “o problema é o meu chefe”, “o problema é a vida”.
4/7/20265 min read


O alcoolismo raramente entra numa casa como um fato. Ele entra como atmosfera. Primeiro como ruído de fundo, depois como regime de realidade. A família aprende, sem perceber, a medir o dia pela estabilidade do corpo de alguém: pela voz, pelo olhar, pelo atraso na volta, pela primeira frase dita ao atravessar a porta. Não é apenas o álcool que ocupa espaço. É a incerteza que ele instala.
A palavra “dependência” costuma ser usada como etiqueta médica, e ela tem seu valor. Mas, na vida cotidiana, o que se vê é outra coisa: um deslocamento silencioso do centro. Aos poucos, o dia da casa deixa de girar em torno do que cada um deseja, planeja ou sustenta, e passa a girar em torno do que precisa ser evitado. Evita-se a conversa que “vai dar gatilho”. Evita-se a pergunta que “vai provocar”. Evita-se a visita que “vai expor”. A família, então, vai se tornando especialista em não dizer.
Aqui aparece uma lógica que Lacan nomearia sem delicadeza: a do sujeito dividido. Não porque o alcoólatra “seja duas pessoas”, mas porque o que ele diz de si raramente coincide com o que o corpo repete. Uma parte fala em controle, outra parte insiste no ato. E o ato, quando se repete, não pede autorização ao discurso; ele o usa como cobertura. O eu promete e a repetição desmente. A fratura não é moral. Ela é estrutural.
No campo dos amigos, o alcoolismo produz uma diferença difícil de sustentar. No início, o grupo tenta cuidar. Depois, tenta rir. Em seguida, tenta não ver. Até que, por fim, começa a se afastar, não por falta de afeto, mas por cansaço de estar sempre na mesma cena, com falas ligeiramente trocadas. O amigo que bebe passa a ser o amigo que “sempre exagera”, o amigo que “fica diferente”, o amigo que “não dá para contar”. E isso cria uma solidão específica: a de ser lembrado apenas pelo próprio sintoma.
No trabalho, a repetição ganha outra linguagem: atrasos, faltas, promessas que não se cumprem, oscilações de humor, improdutividade que não encontra explicação oficial. O alcoólatra, quando ainda consegue sustentar a função, costuma se orgulhar do que chama de competência sob pressão. É uma das justificativas mais comuns: “eu trabalho melhor assim”, “eu fico mais criativo”, “eu preciso para dormir”, “eu preciso para socializar”, “eu paro quando eu quiser”, “eu bebo como todo mundo”, “o problema não é a bebida, é o estresse”, “o problema é a minha família”, “o problema é o meu chefe”, “o problema é a vida”. Cada frase serve a uma finalidade simples: deslocar a causa para fora do ato.
Essas justificativas não são apenas mentira consciente. Elas frequentemente funcionam como tentativa de preservar uma imagem de si que ainda se quer habitável. Admitir a condição exigiria uma reorganização íntima: reconhecer que existe uma zona da própria vida que não obedece. E, para muitos, isso é intolerável. A defesa, então, não é o álcool em si, mas o arranjo de palavras que permite que o álcool continue. A frase vem antes da mudança, porque a frase é o que impede a mudança.
Há, também, uma dimensão coletiva que Byung-Chul Han ajuda a tornar visível. Vive-se numa cultura em que o sujeito é convocado a performar consistência, energia e auto-governo. A queda vira vergonha. O cansaço vira falha. O álcool, nesse cenário, pode aparecer como tecnologia doméstica de regulação: uma maneira privada de lidar com a exigência de estar sempre de pé. Não explica tudo, mas ilumina um ponto: a dependência não nasce apenas do líquido, nasce do lugar que o líquido ocupa numa vida que perdeu outras pausas.
Quando o alcoolismo se instala, a família frequentemente entra no papel de gerente do imprevisível. Começa com pequenos ajustes: esconder a garrafa, controlar o dinheiro, ligar para justificar ausência, suavizar a cena diante das crianças, reduzir o assunto a “fase”. O problema é que esses ajustes, pensados para diminuir o dano, podem se tornar parte do mecanismo que o sustenta. A casa vira um sistema de amortecimento. E o amortecimento, sem querer, protege o ato das suas consequências.
A tragédia íntima é que todos vão sendo convocados para um trabalho que não escolheram. Quem vive junto aprende a ler sinais mínimos. Aprende a antecipar. Aprende a não confiar na primeira versão da história. Aprende, sobretudo, a duvidar da própria percepção, porque o alcoolismo quase sempre vem acompanhado de uma habilidade particular: a de produzir versões convincentes. “Não aconteceu assim.” “Você está exagerando.” “Você também bebe.” “Você também erra.” “Você quer me controlar.” São frases que não apenas respondem, mas reorganizam o campo. A discussão deixa de ser sobre o álcool e vira sobre caráter, liberdade, ingratidão, injustiça.
Em algum momento, a questão central muda de forma. Já não é “por que ele bebe?” ou “por que ela não para?”. É: o que esse ato mantém de pé? Que tipo de gozo se produz aí, nessa satisfação que machuca e, ainda assim, retorna? A pergunta não busca romantizar a dependência. Busca retirar dela a máscara de simples “falta de força”. O que se repete, em geral, se repete porque paga um preço e entrega um ganho. E o ganho pode ser tão opaco quanto real.
O alcoolismo, então, aparece menos como um excesso de bebida e mais como uma organização do laço. Ele reorganiza conversas, horários, expectativas, alianças, silêncios. Ele cria cumplicidades e ressentimentos. Ele faz o amor virar vigilância e a amizade virar protocolo. E, para quem bebe, ele oferece um ponto fixo: uma previsibilidade química num mundo que parece exigir demais.
O problema é que, quando o álcool vira solução, ele também vira linguagem. E a linguagem, quando se fecha, deixa pouca passagem para o outro. A família tenta falar e encontra paredes. Os amigos tentam intervir e encontram piadas. O trabalho tenta cobrar e encontra justificativas. O sujeito, por sua vez, tenta se explicar e encontra, quase sempre, um argumento final: “eu sou assim”. Essa frase é a mais perigosa porque transforma repetição em identidade.
Talvez o ponto mais duro seja este: enquanto o alcoolismo puder ser tratado apenas como comportamento, ele será discutido em termos de vontade e culpa. Mas, quando ele é reconhecido como estrutura de repetição que organiza a vida e o laço, a conversa muda. Não fica mais fácil. Fica mais verdadeiro. E, às vezes, é só aí que a casa deixa de girar em torno da bebida e começa a girar em torno do que, por trás dela, nunca encontrou outra forma de ser dito.
