Absurdo

Sobre o absurdo de viver

3/13/20263 min read

Há um momento — geralmente sem data marcada, sem evento deflagrador — em que você percebe: nada disso faz sentido. Não o trabalho que você escolheu, não o relacionamento que você construiu, não sequer a vida que você vive. A pergunta não é filosófica. É concreta. Você acorda, cumpre a rotina, e em algum ponto entre o café e o fim do dia, a questão aparece: por quê?

Camus chamou isso de absurdo. Não como diagnóstico de irracionalidade, mas como condição fundamental da existência humana. O absurdo é a confrontação entre a necessidade humana de sentido e o silêncio indiferente do mundo. Você busca razão, propósito, justificativa — e o mundo não responde. Ele simplesmente continua.

O que torna isso insuportável não é a ausência de sentido em si. É a consciência aguda dessa ausência enquanto você ainda precisa viver. Enquanto ainda precisa escolher, agir, construir — sabendo que nenhuma escolha tem fundamento último. Que nenhuma ação se justifica plenamente. Que tudo o que você constrói está apoiado sobre o vazio.

A resposta mais comum ao absurdo é a fuga. Criar sentido artificialmente. Aderir a uma causa, a uma crença, a um projeto que prometa significado absoluto. Trabalhar como se o trabalho salvasse. Amar como se o amor preenchesse. Acumular como se a posse resolvesse. Qualquer coisa que silencie a pergunta.

Freud sabia disso de outro modo. O mal-estar na civilização não é efeito colateral — é estrutura. Viver em sociedade exige renúncia. E essa renúncia nunca é inteiramente compensada. Sempre sobra algo. Um resto que insiste. Uma insatisfação que não se resolve. O absurdo freudiano não é metafísico — é pulsional. Você deseja o que não pode ter. E quando pode, já não é aquilo que desejava.

O absurdo não se resolve. Essa é a má notícia — e também a única honesta. Você pode criar sentido provisório. Pode escolher suas ficções. Pode decidir em que vai acreditar hoje. Mas a confrontação com o sem-sentido não desaparece. Ela retorna. Nos momentos de pausa. Nas madrugadas em que o corpo acorda antes da razão. Nas crises que desmontam as certezas que você construiu.

Camus propõe a revolta. Não contra o absurdo — mas a partir dele. Viver sabendo que não há sentido último e ainda assim escolher viver. Sísifo empurra a pedra sabendo que ela voltará a cair. E é feliz. Não porque a pedra chega ao topo. Mas porque é sua pedra. Sua escolha. Sua revolta.

A psicanálise não promete resolver o absurdo. Promete apenas que você possa habitá-lo de outro modo. Que conheça melhor seus padrões. Que entenda por que repete o que repete. Que reconheça o que de fato deseja — e o que apenas demanda. Que suporte melhor a falta. Não porque ela deixa de existir, mas porque você sabe agora que ela é condição — não falha.

O absurdo não é problema a corrigir. É tensão a habitar. E habitá-lo exige coragem. A coragem de viver sem garantias. De escolher sem fundamento último. De construir sabendo que tudo é provisório. De desejar sabendo que nenhum objeto satisfaz completamente.

A pergunta que resta não é "por quê?". É "como?". Como viver sabendo disso? Como escolher quando nenhuma escolha se justifica plenamente? Como desejar quando o desejo nunca se completa?

A resposta não está em eliminar a pergunta. Está em aprender a viver com ela. Em fazer dela não um impedimento, mas uma bússola. O absurdo não paralisa — liberta. Quando você sabe que não há sentido dado, toda escolha se torna sua. Todo sentido que você cria é seu. Provisório, frágil, verdadeiro.

Você não vai resolver o absurdo. Vai aprender a empurrar sua pedra. E talvez — apenas talvez — descobrir que a felicidade possível não está no topo da montanha. Está no ato de empurrar. Na revolta de continuar. Na escolha de viver apesar de tudo.

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